Engraçado... No fundo no fundo ela
não queria mesmo mudar.
-Quem em sã consciência muda de
colégio em pleno terceiro ano? – com certa razão ela tinha dito. Mas, só uma
louca seria capaz de desperdiçar uma oportunidade dessas, o que não era o caso
dela. Afinal, eu estava aqui!
Não demorou muito para que ela
percebesse no quê havia nos metido. Mais que uma nova escola, aquilo certamente
era um novo mundo – ela começava a acreditar que possivelmente de uma galáxia
muito, muito distante! – só isso explicava o fato dela sequer entender a língua
que eles falavam... Céus! Aquilo era grego ou eles realmente estudavam uma
entidade chamada Kekulé?
Confesso que muitas vezes não fui de grande
ajuda... Aconselhei que ela não fizesse amigos e que se concentrasse apenas nos
estudos, mesmo sendo ela a boa aluna que era e um ser completamente impossível
de não soltar um “Oi” com “florzinha” a cada um que passasse. Fui eu também a
responsável pelo grito desesperado por silêncio naquela aula de matemática,
que, só de lembrar a fez chorar a noite toda.
Desde quando ela precisava de
silêncio ou gritava com alguém que mal conhecia??? Ao que parece, desde a nota
baixa no último boletim. Foi então que eu percebi que estava perdendo-a aos
pouquinhos. Há tempos que ela não via seus amigos, ia à igreja ou lia uma
revistinha da Mônica... Qual tinha sido a última vez que ela escrevera uma
crônica ou gargalhara por nada? Droga, ela só chorava, chorava e chorava. O que
eu tinha feito? Em quase 16 anos eu só a tinha visto “vazar” em dia de vacina!
Eu tinha quebrado ela...
Foi aí que eu pedi ajuda. E
quando admiti que não podia mais suportar – pelo menos não sozinha, eu a
enxerguei em cada um daquela turma. Eu consegui ver nas olheiras deles que ela
não era a única perdendo o sono em véspera de prova e, sorri ao reconhecer
naqueles grandes a humildade e o medo dos pequenos que foram um dia. Ali na
minha frente estavam os responsáveis pelo looping de 180° que a vida dela tinha
dado nos últimos meses e, de repente, eles não pareciam mais ETs. Eles
transmitiram a força que só quem é nascido pra vencer possui.
Eu a vi renascer quando finalmente
um raio de sol surgiu em sua jornada. E mesmo com toda a sua armadura, ela fez
amigos e não a repreendi. E no meio de estrelas, mesmo que perdida em uma
teoria de pontos, eu deixei que ela tomasse suas próprias decisões. E ela as
fez, sem nenhum arrependimento. Conheceu sábios que brincavam em aula, que encenavam
inventando terras paralelas para que pensássemos a fundo de um contrato social
ou de uma fagocitose; mestres contadores de histórias ou apreciadores de coxinha.
Passou de ano com boas notas... E, não só sobreviveu à mudança do seu mundo e
ao Enem - conheceu os postulados sobre o carbono ou leu sobre os desventurados Baudelaires
– mas também cresceu. Eu sei bem disso porque eu sou a consciência dela. Não
somos mais aquela menininha.
Estamos novamente assistindo o
mundo que conhecemos dar mais um looping, talvez de 360° e sem avisos.
Engraçado... Agora não estou com medo de mudar.