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Larva de sonho

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

          Estamos aqui mais uma vez. Você e eu, elas e aqueles... Nós estamos aqui, mais uma vez. Talvez digamos que de passagem não somos os mesmos, ou que talvez os mesmos sejam. É possível que acreditemos no final apenas como outro inicio, como também é louvável assumirmos que não queremos recomeçar. Não do zero.
          Não me entenda mal, uma quantidade de tempo proporcionalmente livre, e recheado de tudo o que quisermos fazer é indiscutivelmente um sonho. Sonho que ao passar dos dias vai ficando cada vez menor, chega a ser portátil para carregarmos no bolso, e é aí que antes dele sumir, instantaneamente cresce e gigante novamente seu único receio é a contagem regressiva 10, 09, 08, 07, 06, 05, 04, 03, 02... Você sabe.
          Então porque deixamos nosso sonho tão pequeno, já que alimentamos tanto ele a cada explosão de fogos de artifício? É inato que metamorfose não nos pareça uma boa ideia, e já que não mudamos, o sonho não se desenvolve e não passa de larva. Nós teimamos em ser maior que nossas esperanças e não o contrário. O poder de superioridade nos desperta, mas não nos guia, e às vezes alerta percebemos que não é tarde demais. Mas aí vêm as poucas taças de champanhe da noite passada e cá estamos de novo.
          Estamos aqui mais uma vez. Você e eu, elas e aqueles... Nós estamos aqui, pela ultima vez esse ano. Com o sonho a ponto de diminuir, por pura comodidade, medo, insegurança até. Que faremos com o que somos? Não nos preocupemos, o Sonho vem aí, o mesmo desde o inicio dos nossos tempos... Basta termos a força de transformá-lo em tudo o que quisermos. Borboletas serão apenas o início.
Danielly Lopes - Araguaína / TO

Um aparelho ortodôntico para um sorriso amarelo

     Enquanto o céu cinza anunciava o “toró” que iria cair sobre o setor Maracanã, descia eu, a avenida com minha Tia Bilu - companheira de sempre – a tiracolo.
     - O tempo dos jambos ta acabando, e esse ano ainda não comi nenhum, por conta do meu aparelho! ... - Comento distraidamente, recordando-me das inúmeras oportunidades que tive nesse Dezembro de me deliciar com a pequena frutinha vermelha, mas que por medo de quebrar meu “concerta sorriso”, nem me atrevi. Sentia-me um peixe com um anzol na boca.
     - Ali no fim da avenida tem um pé menina, olha! – Tia Bilu avisou, apontando ao longe a árvore de formato inconfundível.
     Num piscar de olhos da minha tia e lá estava eu embaixo do pé a procura de um mísero resquício de uma temporada farta. O vermelho de um único fruto piscou, tal como luz de Natal naquele mundaréu verde das folhas. Agora não teria aparelho nenhum que me segurasse! Minha dentista teria de me perdoar, por que lá estava aquele solitário jambo me chamando, me hipnotizando... Quase que me pedindo para salvá-lo do escuro da copa da arvore!
     Eu tinha que ser rápida! Além de a chuva anunciar cada vez mais zangada sua chegada, a casa em frente estava com as janelas abertas, e eu já tinha percebido uma senhora lá dentro, varrendo a sala. Era como se a casa com seus olhos bem abertos fosse ora cúmplice, ora testemunha do promotor. Se a dona da casa me pegasse ali, roubando jambo da sua casa... Seria um flagrante inegável!
     Mas que falta de sorte, o danado do jambo estava fora do alcance das minhas mãos. Parecia que meu aparelho ortodôntico iria ganhar novamente. E agora quem poderia me defender? Tia Bilu, ainda caminhando ao meu encontro, era dona de uma estatura menor que a minha... Foi aí caro leitor, que tive a certeza de que tamanho é identidade sim, senhor!
     Já me comparando a Dona Raposa, de “A Raposa e as uvas”, e estando a ponto de desistir, reconheci por entre as folhas, descendo no ponto de ônibus da esquina munida de sacolas de compras, uma amiga, e que para a minha alegria vinha se aproximando rapidamente com receio da chuva.
     - Juliette! – gritei – Minha flor, tu é mais alta que eu, me ajuda a roubar esse jambo! Antes que a dona da casa veja! – completei num sussurro.
     - E ainda tem jambo aqui?! Eu não sabia... – Disse já arrancando com facilidade meu tão desejado deleite azedo.
     - Ô Juliette, pensei que a dona da casa ia me flagrar aqui roubando jambo! Obriga...
     Não consegui completar o meu agradecimento, Tia Bilu chegou onde estávamos, e ao passo que eu já ia lhe deixar a par do sucesso da operação, ela virou-se para Juliette e perguntou:
     - Ué Juliette, tu não sabia que ainda tinha jambo aqui no pé em frente a tua casa?!
     E foi aí então que um sorriso amarelo tomou conta da minha “boca de ferro” molhada pela chuva, que com o acontecido tinha finalmente chegado.
Danielly Lopes - Araguaína / TO

Maldito acidente

terça-feira, 25 de agosto de 2015



          “Tua mulher tá te traindo” com os dedos ágeis eu tinha escrito. Uma mexidinha na configuração do SMS e pronto! Anônimo, claro. Eu estava segura a ponto de mostrar ao meu pai quem era de verdade essa piriguete que ele colocou em nossa casa.
          -Você precisa de alguém pra substituir sua mamãe, já faz um ano querida... – Ele tinha dito.
          -Eu preciso?! Ah!- Eu era o sarcasmo em pessoa - Não importa se já passou um ano que ela se foi naquele maldito acidente! Ninguém vai substituir a minha mãe... Nunca! – disse. Mas foi o mesmo que não ter dito. Duas semanas depois e a lambisgoia tinha se apossado da vida da minha mãe... Da minha vida.
          Naquele tarde ele iria saber. Ele tinha que acreditar por que eu não suportava mais ficar assistindo aquela bruxa trocar meu pai pelo amante. Ou como ela costumava dizer, o “primo distante do Sul”. Aquilo tudo estava me deixando insegura, frágil e gradativamente louca. E sem pensar em nada, decidi apenas não mais passar por isso outra vez.
         Era só tocar ENVIAR na tela e... resolvi então não enviar o SMS, eu não tinha nada que me meter, não é mesmo?! Pronto foi isso, apenas deixei pra lá.
          Mas o celular deu xabu, travou e não quis voltar nem com reza!  Tentei reiniciar. Reiniciei, mas não foi como eu imaginei, deu problema. A porcaria da mensagem já havia sido enviada. E o pior não foi pro numero do meu pai, mas pro Sr. Mário Amorim meu vizinho. Foi um acidente assim como a morte da minha mãe, só que esse eu poderia consertar, se não estivesse mega atrasada pra escola.
          -Mas que pitombinha – lembro de ter dito pela primeira vez de muitas, naquele dia.
          Pensei que contar o mal entendido pro seu Mário depois da escola não seria problema. Afinal os meus vizinhos eram apaixonados. E segundo Dona Nena, esposa de seu Mário, eles estavam pra comemorar 25 anos de casados com um baita festão que teria até uma cascata de chocolate iguais as da novela das 11. O amor deles ao contrário do que os meus pais sentiam, não ia morrer. Acidentalmente não foi isso que aconteceu com meus pais, pois acidentes acontecem e eu precisaria aceitar que algumas vezes o amor morre, mata e outras ainda, vive eternamente... Amor como o que eu ainda sinto pela minha mãe.
Autora: Danielly Lopes - Araguaína / TO

“Paiaço”

domingo, 9 de agosto de 2015

          Meu pai já foi modelo e DJ quando jovem, mas hoje não se contenta só com a serralheria, sonha em realizar novos empreendimentos todos os dias. Meu pai antes de mim planejava ter cinco filhas, mas quem o conhece sabe que ele parou na primeira que teve. Foi meu pai quem me comprou um radinho vermelho que quando bebê me fazia balançar animada ao som que fazia. Meu pai queria que eu me chamasse Micaela, talvez por isso ate pouco tempo escrevia meu nome com um “A” no final.
         Meu pai me ensinou toda a tabuada de multiplicação. E aos oito quando discuti com minha professora, ele quem foi chamado pela coordenação. E com a promessa de uma pisa bem dada foi a primeira e ultima vez que a escola o viu. Meu pai nunca me bateu, e eu não sou uma pessoa ruim por isso.
         Meu pai sabe desenhar, mas morre de preguiça disso. Meu pai sempre dividiu meus lanches comigo. Ele sempre é o primeiro e o ultimo a comer de um pote de doce. Ele é apaixonado por Nesquik e sempre diz que quem quiser matá-lo é só por veneno numa lasanha quentinha pra vê-lo estirado chão. Aliás, lasanha é seu prato favorito.
         Foi ele quem há pouco tempo voltou a estudar e hoje mudou sua escolaridade para “Ensino médio completo”. Meu pai é muito inteligente, mas é péssimo em ortografia. Meu pai é muito curioso, e talvez por isso seja sempre ele quem concerta tudo de tudo aqui em casa – Depois de mamãe muito pedir.
         Meu pai sempre me faz rir, não importa qual a situação; Creio que tenha sido ele a estragar minha “tranca de gargalhada” quando eu ainda era uma menininha. Meu pai sempre começa uma briga de almofadas na sala quando a novela fica chata. Sempre ganhei do meu pai no videogame, e ele sempre pede revanche, em compensação ele sempre vence a revanche. Meu pai solta pipa, dança flashback e gosta dos heróis da Marvel, inclusive o Hulk. Os filmes de ação só têm graça se ele estiver comigo pra me explicar cada explosão. Papai nunca teve muito jeito com crianças, mas elas o adoram e talvez por isso eu tenha perdido a conta de quantos afilhados, mamãe e ele possuem.
         Meu pai é um bom marido. Chama mamãe de “Bem” e eu me lembro de quando ele mandava msg pro celular de mamãe assinando como um admirador secreto. Ele e mamãe são o casal mais lindo que já conheci. E acredito que quando me apaixonar por alguém, esse alguém será como ele, criativo, honesto e sempre me fará rir. Enquanto isso, sigo apaixonada só por ele mesmo.
         Meu pai é minha imagem e semelhança, serio mesmo. Tem cara de bravo, mas é só abrir um sorriso que todo o resto se esvai. Odeia mentira, e consequentemente falsidade.  Às vezes seus olhos estão como o mel mais puro, mas a cor do mesmo muda conforme o humor.
          Meu pai é nada mais que menino danado. É grande contador de historias e em cada uma se comprova o quão desinquieto era quando criança. Bebe socialmente e quando chega o fim de semana abandona as botas de bico de ferro e as troca por um boné da moda e um par de sandálias. Meu pai é dono de um bom gosto indiscutível.
          Meu pai me ensinou a andar de bicicleta e hoje me ensina a dirigir seu carro. Meu pai sempre me acorda perguntando se vou pra escola, e eu sempre penso duas vezes antes de confirmar. Meu pai gosta de chocolate branco enquanto eu ainda prefiro chocolate ao leite. Meu pai me magoou quando não compareceu a minha Crisma, mas já o perdoei. Meu pai a cada cachorro que criávamos e vinha a falecer, ele dizia que não criaria mais nenhum, a prova que contradiz tudo isso é o Tufão, que brinca ali no quintal. 
          Ele quem chegava em casa com duas ou três revistas em quadrinho pra me presentear, e hoje tem que suportar e custear essa minha fome insaciável por livros e historias novas. Meu pai leu um livro uma vez, mas não passou do prólogo; cochilou e nunca mais o pobrezinho foi aberto. Ele quem me acompanhou na “saga da OLP”, inclusive foi ele quem viajou de avião junto comigo por conta disso...
         Meu pai é o melhor pai do mundo, não por ser perfeito, nem mesmo por ser um super herói. Ele é o melhor porque ele é pai, amigo, irmão e meu filho tudo ao mesmo tempo e na hora certa. Mamãe costuma dizer que ele é “pai-paiaço” por sempre me apoiar em tudo. Mas talvez seja isso mesmo. Quem sabe ele seja mesmo um super herói, um homem de aço... O meu Pai-aço. Ele é tudo isso e um pouco mais.
Autora: Danielly Lopes - Araguaina / TO

 

Bonequinha portuguesa


          As tenebrosas e carregadas nuvens, que escondiam o lindo pôr do sol que daqui se costuma ver, já mostravam que algo de ruim aconteceria naquela tarde.
          Confesso-lhe, caro leitor, que não sou uma menina muito organizada e digo-lhe ainda que essa foi uma das raras vezes que eu mesma arrumei meu quarto, mas com o tempo fechado como estava e todos meus livros da estante já lidos, não me restou outra coisa a fazer.
          Comecei a faxina. Pano, vassoura, desinfetante (para dar aquele cheirinho de limpeza), detergente multiuso e um cesto para abrigar as roupas que se encontravam no chão. Depois de amontoar as roupas sujas no cesto, passar pano no chão e arrumar a cama, chegou a hora de tirar pó da cômoda.
          Tirei cuidadosamente os enfeites e porta-jóias que ficam em cima do móvel. Tudo ia bem, até que minhas mãos, escorregadias por causa do detergente deixaram a ultima peça cair.
          Uma bonequinha de louça, vestida formalmente com um vestido longo e rodado de seda, todo lilás e com bordados pretos na barra. Usava também, uma boina da mesma cor e tecido do vestido, por cima de seus longos e cacheados cabelos castanhos. Era linda, e tinha sido trazida de Portugal especialmente para mim, sem duvidas o meu xodó.
          Perna para um lado, pezinho para o outro; braços partidos em dezenas de pedaços, do corpo nada sobraram além de cacos. Somente o vestido e os cachos não foram danificados pela queda.
          Após alguns minutos contemplando aquela triste cena, peguei a pá e recolhi os cacos – os meus e os da boneca - lentamente e, com os olhos cheios de lagrimas, joguei-os no lixo.
        Hoje o vestidinho de seda veste, um pouco apertado, uma outra bonequinha, dessa vez de plástico e eu nem me atrevo mais a tirar pó de meu quarto.
Autora: Maria Luiza Pacheco - Nuporanga / SP

Namorado de sonho

sexta-feira, 31 de julho de 2015

          Estávamos indo conhecer a família do meu namorado. Papai, mamãe e eu. Meus pais idolatravam o garoto, mas eu não lembrava que estava namorando...
          No carro durante o caminho eu ia pensando no tal namorado, mas nada me vinha à cabeça. Aquilo estava sem cabimento nenhum, como eu não me lembrava do meu próprio namorado?!
          Chegando ao lugar, que mais parecia uma chácara bem humilde, a família dele começou a se apresentar um por um e pelo visto, só quem achava aquilo estranho era eu. Cumprimentei a avó já bem velhinha, brinquei um pouco com a irmã e os primos mais novos e tentei ajudar no almoço, mas a mãe dele, digo a sogrinha, e as tias não deixaram. A família era enorme, e aquela situação me parecia tão ilusória quanto ele próprio.
          Sonho. Era isso, só podia ser isso! Um sonho!
          Como aquelas cenas de filme, enquanto eu sorria amarelo pra todo mundo, uma mão me puxou pela cintura e tapando meus olhos alguém me levou para um canto vazio. Um garoto. Um garoto bonito, pouco mais alto que eu. Ele começou a conversar comigo. Quem era aquele figura, eu não sei e aposto que ainda não o vi por aí perdido em meus pensamentos... Mas que belo sorriso ele tinha.
          Louca. Eu só podia estar louca. Ele ali de olhinhos brilhantes na minha frente, provavelmente era o 1° fruto de minha insanidade!
          Ele conversava comigo animado e ansioso, e eu lá achando tudo sem pé nem cabeça. De que casamento ele estava falando?!
          Antes de sanar minha curiosidade, ele me abraçou forte pela cintura e – juro!- me arrepiei do dedinho do pé até o ultimo fio de cabelo.  E ele veio chegando, chegando... Opa! Mas aquilo não era real, era um sonho certo?! Tinha que me esquivar. Tentei mudar de assunto, virar o rosto, mas algo me prendia nos braços dele de tal forma que ao invés de amor, comecei a sentir medo, queria sair dali, gritar; mas quanto mais eu tentava mais ficava estranho.
          Onde estava aquela família enorme quando se precisava dela?
          Um barulho de riso no corredor e logo meus pais vinham ao nosso encontro. Só assim ele pode parar com as investidas. Abraçou-me de leve pelo ombro e minha mãe sorrindo perguntou:
         -Como estão os noivos?!
         E eu acordei. Eram 7:30 da manhã.
 Autora: Danielly Lopes - Araguaina/TO

Princesas com sapatinho de cristal

         “Meritíssima”, eu começava, “minha cliente sofreu cerca de seis facadas no abdômen no ultimo dia 06, por nada mais que ciúmes do marido...”. E lá se ia mais um caso, no meio de tantos outros no qual eu tentava sempre proteger minhas clientes do abominável sexo masculino. “Sexo frágil”. Humphf!
          Mulheres são como flores, mas nem por isso precisam ser esmagadas. Eu sempre soube disso, sempre defendi isso. Porém a minha realidade é outra, totalmente distorcida.
          Fico cara a cara com inacreditáveis historias de terror que, quando menina não me deixavam dormir, e que hoje porém,  o pesadelo me atormenta cada vez mais assustador de um caso pro outro, de uma cliente pra outra... De uma surra que depois da primeira vez passou a ser freqüente, a um corpo encontrado sem vida no chão do banheiro. E o pior de tudo isso é que quando abro os olhos os monstros ainda estão aqui. O machismo atualmente, deveria não existir, mas não só existe como persiste também.
         Tive que ouvir muita coisa ao comprar a minha casa, ao escolher meu curso na faculdade, e até mesmo quando escolhia usar calça ao invés de uma saia pra sair.
         Muitos mitos foram adquiridos ao longo do tempo na humanidade, e o meu papel, não de promotora, mas de mulher que se preza é esse: Quebrar essa realidade inversa, que ficou lá atrás, mas que infelizmente trouxe pro presente os chamados trogloditas.
         Penso nisso em todos os fins de tarde no meu caminho de volta pra casa.
         Já deitada na minha cama, ouço uma doce melodia vinda ao longe. Recuso a levantar-me no primeiro instante, mas fico de pé em frente à janela, suspirando ao ver quem me espera.
         A visão do moço alto, tocando violão embaixo da minha varanda, sorrindo e exibindo as covinhas que ele guarda só pra mim, me faz voltar aos meus tempos de menina, em que a verdade conhecida era a dos contos de fadas, a de que princesas eram sempre acordadas com um beijo de amor verdadeiro... Diferente dos dias de hoje, onde as princesas com sapatinho de cristal morrem; pelos punhos dos ditos príncipes.
  Autora: Danielly Lopes - Araguaína/TO

Brilho de camelô

quarta-feira, 29 de julho de 2015

          Cedo ele já estava de pé - hoje mais cedo que o habitual – vai até o quarto da filha e a contempla dormindo. Há 15 anos que toda manhã faz esse mesmo gesto. Apressado se veste e escova os dentes. Merendar pão com café?! Nem pensar! Não há tempo para formalidades.
          E pedalando segue, sozinho, quase flutuando – perdido até – em seus pensamentos. E então pensa consigo “Hoje é dia 05, bem pois é, amanhã tem conta de luz e semana que vem já chega a de água... Cacetada! Foi ontem a prestação da geladeira, meu nome vai acabar indo pro HSPC!! Droga, bem disse pra mulher que não íamos conseguir pagar...”
          Quase sem perceber adentra o local de trabalho. Insalubre e desajeitado local de trabalho. Ele, ao contrario do lugar, é bem ágil e com suas mãos de fada enfeitada de calos grossos, vai exercendo seu oficio. Aprendera com o pai e a mais de vinte anos que se sustenta com tal. Corta, lixa... “Opa, tudo bom seu Francisco?!!”... costura. Pronto um pé do par, falta o outro pé para dar uma passada completa.
           Ao cair da tarde, antes de sair, fora convocado a passar na sala do chefe. Despedido. Sem motivo maior ele deixa a fabrica de botinas de couro. Desiludido refaz seu próprio caminho enquanto volta pra casa.
           A filha com um sorriso de orelha a orelha, o espera na soleira da porta. Abraço apertado pra cá, beijinho pra lá. “Espera um instantinho, pequena?! Tenho uma surpresa pra tu”. Vai lá dentro do quartinho apertado, e numa gaveta velha pega o que comprou e guardou durante duas semanas. O qual ela queria tanto.
          - Feliz aniversário, minha filhota! Agora já tem 15 anos, pode usar a vontade. Papai não esqueceu, era o que queria não é?? Aquele do qual vi tu conversando com a Chaguinha??...
          E um pouco aturdido no olhar brilhante da filha, ficou ali, parado. Esqueceu-se de tudo: das contas, do chefe, da demissão e do desemprego. E por um momento se permitiu compartilhar do sorriso da filha, que ficara tão feliz com um brilho labial rosinha, que o pai comprara no camelô.

Autora: Danielly Lopes - Araguaina / TO

Ciúme que não mata

segunda-feira, 6 de julho de 2015

          Em duas semanas completariam bodas de prata. Na ultima viagem de férias aproveitou que ele não pôde deixar o trabalho e organizara tudo com antecedência na capital.
          Planejara sozinha a comemoração que marcaria o ápice do amor dos dois. Casa cheia, família reunida, um churrasco, musica ao vivo, vestido novo, quem sabe um bolo e até mesmo uma daquelas cascatas de chocolate iguais as da TV! Ele adorava chocolate.
          O único problema era conseguir guardar segredo do marido. Ela era horrivelmente péssima em mentir. Logo o marido descobriria.
          E ele descobriu numa noite a caminho de casa, enquanto ela preparava o assado para o jantar. Ele chegou em casa batendo a porta com força e começou a gritar. Ela não entendia o porquê da raiva dele. “O que aconteceu meu amor?!” com lagrimas nos olhos ela tinha dito.
          Mas aquele desconhecido com uma faca na mão já não era seu homem. Era frágil, inseguro e gradativamente louco.
         Não teve como se defender. E em cada punhalada que recebia do marido, esganiçava para que ele parasse, tentou até revelar-lhe da festa, mas nada pôde falar ou fazer.
         Em minutos estaria caída no chão com seu marido ao lado. Ele sofrera de um infarto. Ela de facadas. Sofreram os dois por conta dos ciúmes dele.                                   
         Tudo isso ela relataria em seu depoimento a policia meses depois, debilitada ainda e com lagrimas nos olhos, como naquela noite em que o amor morreu, pois infelizmente era a verdade. Até porque não sabia mentir.
Autora: Danielly Lopes - Araguaína/TO

Quando se morre de ciúmes

quinta-feira, 25 de junho de 2015

         No caminho de volta para casa recebeu um SMS: “Tua mulher ta te traindo”. Anônimo, claro. Acelerou o carro bem mais do que costumava sem se preocupar com mais ninguém. Estava com pulga atrás da orelha desde a ultima viagem de férias que ele não pôde ir. Não era a primeira vez que desconfiava de uma traição.
         Em casa entrou batendo a porta com força, e rumou para a cozinha. Ela estava lá, preparando o assado para o jantar; estava perto demais na hora errada, porque a faca de corte também estava ali.
         Uma coisa era certa: ele não gostava de sentir aquilo, aquela... Coisa. Coisa que o deixava inseguro, frágil e gradativamente... Louco. Aquela tal coisa chamada ciúme.E sem pensar em nada, decidiu apenas não mais sentir “aquilo” outra vez.
         Cada vez que acertava com a arma branca o abdômen da ex-amada, vingava-se por todas as vezes em que ela não o amou, somente por estar idealizando o possível “outro”.
         E de repente, conseguiu o que queria; o que o ciúme queria. Em poucos segundos não sentiu mais ciúmes; não sentiu mais coisa alguma. Nada. Apenas o solitário e o triste, de um amor morrendo... Somente o vazio.
         Tinha tido um enfarte.
 
Autora: Danielly Lopes - Araguaina /TO

Esquerda ou direita?

segunda-feira, 30 de março de 2015


-E agora: é para a esquerda ou para a direita?- Perguntou o Marido, parando o carro numa bifurcação da estrada.
-Como assim “pra onde”, tu não sabe o caminho?- Respondeu a Mulher.
-Eu nunca disse que sabia. Não perguntou pra Comadre?- Revelou Ele.
-Não, não perguntei. Vínhamos aqui direto, pensei que tu soubesse o caminho- Disse Ela já antevendo um baita atraso na festa.
-Sim, mas quando os visitamos pela ultima vez, a Gabi tinha 9 anos e hoje ela está completando 15- Disse Ele exaltando-se.
-E agora?- Desesperou-se a Mulher, encabulada com a rapidez do tempo, dando uma olhada no retrovisor para recontar as –quase nulas- rugas.
-Precisamos escolher: esquerda ou direita.
-Lembro que tinha uma placa de madeira na entrada... – murmurou Ela pensativa- A mensagem que a Comadre me mandou dizia que é depois do bar do Romualdo a 2ª à esquerda.
-Vamos ir pela direita então, até achar o tal bar. Afinal de contas, não deve ter mudado tanto assim, né?!- Disse Ele, sem nem mesmo acreditar em suas próprias palavras.
Seguiram por uma estradinha de chão por mais ou menos uma hora. Passaram por pequenas casas que pareciam engolidas pela escuridão e por no mínimo 7 bares! Mas infelizmente nenhum deles era o do Romualdo.
-Não lembrava que fosse tão longe.
-Serio Mulher?!- e o sarcasmo fervia em sua voz- Não tem como ligar pra Comadre?
-Aqui não tem sinal pra celular de nenhuma operadora, ou tu se esqueceu disso também?!- Irritada Ela já não agüentava o banco desconfortável do carro.
-Espera aí, a culpa não é minha! Eu nem mesmo estava a fim desse aniversario! Tu que combinou tudo, só não o endereço!
Um silêncio cortou a noite, e o casal cansado não pôde nem quis discutir mais. Só queriam voltar pra casa. E o fizeram seguidos pela orquestra de grilos que se tornara ensurdecedora.
 Já perto da familiar bifurcação, começaram a lamentar-se:
-A Gabi ta fazendo 15 e nem vamos vê-la- choramingou a Mulher.
-Você diz. E Mamãe?! Não vai me perdoar tão cedo, por perder a visita dela... – Previu o Marido- O que você acha? Esquerda?
- Esquerda! – Respondeu Ela com entusiasmo em seu ultimo fio de esperança.
Seguiram pela esquerda e, mal haviam se passado 5 min, encontraram o Romualdo, e o seu bar estava o mesmo, assim como a placa de madeira na entrada.
20 minutos e chegaram ao seu destino. Mais tarde, na volta, vieram decorando cada detalhe, cada qual com um lado do caminho, repetindo em voz alta e anotando cada buraco, arvore e cerca... Para que no próximo aniversario tenham esquecido tudo outra vez. 
   Autora: Danielly Lopes - Araguaína/TO

Uma ideia falta, mas passarei o meu recado.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Tem dias que ideias faltam-me. E parece que entro em uma dívida interna. Lamento a falta de inspiração. Até por que uma crônica de boa tarde seria uma ótima ação. E, por que então, não tentar abrir o coração?

Às vezes temos certeza do que sentimos, ou não, e dá uma vontade absurda de escrever sobre aquilo. Às vezes a mensagem que queremos passar é simples mas a língua trava, o seu coração está bem aberto, mas a língua trava... E vez por outra frusta o escritor, temos sede de terminar logo um texto e depois mostrá-lo para alguém. E como não quero que esse peso fique comigo, por hoje, tentei escrever um pouco, até porque parar para pensar e vê que falhou talvez me torne melhor do que outro que nem ao menos tentou. 

Mas olhe só, leitor, o prazo já passou! Já é quase noite e não consegui passar o que em minha mente pesou... Mas sabe, queria mesmo que nosso dia fosse regado. Regado de "bom dia", "boa tarde" ou ''boa noite'' (coisas que hoje em dia são totalmente desconhecidas e consideradas por muitos ''inconvenientes''). Hoje em dia só se faz isso por rede social, mas o que o ser humano mais sente falta é do tal contato pessoal. E se ao menos metade visse a necessidade de um simples gesto como este, o mundo estaria mais ameno, mais amável e por fim, melhor habitado.

E lamentavelmente hoje não me parece o melhor dos dias como escritora, mas que possamos deixar as boas regalias fazerem parte do nosso dia a dia. Uma vez que, outrora, estas por muitos foram esquecidas.


Letícia Ganassini, Brasília - DF.

Dilema

segunda-feira, 9 de março de 2015

á com a mochila nas costas, Caíque se dirigia novamente ao ponto de ônibus, rumo a faculdade.
Estava com o corpo fadigado, depois de ter distribuído abraços grátis na Praça da Alfândega. Afinal, foi um domingo cansativo: muitas selfies, likes e retweets. Mas o mais maçante foi ter que escrever "Free Hugs" nas cartolinas, azuis e verdes, com caneta hidrocor rosa. 35 cartazes... Puxa!
Subiu no coletivo. Depois de ter pago a passagem — mais cara, após o reajuste — percebeu que lhe foi cobrado o preço normal, até porque havia esquecido sua carteirinha do passe estudantil. Então, não podia — nem devia — reclamar. Nem se deu ao trabalho de ler os avisos colados atrás do cobrador. Atravessou a catraca e se viu em pé, em meio a sovacos cabeludos e bundas empinadas. Todos estavam apertados como sardinhas enlatadas, e o ônibus não tinha ar-condicionado.
O cheiro era tão nauseante que Caíque esteve a ponto de vomitar. Um misto de roll-on com CC, cebola e Musk. Aquela essência extravagante parecia lhe impregnar até a alma. O calor de, digamos, 360 °C, fazia o odor exalar com ainda mais intensidade. O ar poluído ia grudando no suor da sua testa, pinicando, e criando uma camada de sujeira.
— Como eu queria botar um limão no sovaco dessa gente — murmurou —, talvez eles não saibam que existe Colgate também.
Seu ponto estava chegando. Puxou a cordinha. Desceu. Suspirou de alívio. Limpou a testa. Suspirou de novo. Foi se dirigindo a faculdade, quando Luciana — uma amiga — lhe puxou:
— Aonde tu vai, Caíque? — ela falou.
— Pra facul, ué — ele respondeu.
— Olha pro cartaz — ela retrucou, apontando para um cartaz na entrada da faculdade.
O cartaz dizia, em letras garrafais:
BOM FERIADO.
— O QUE?????!!!!!?! — Caíque gritou.
— Achei que tu soubesse — Luciana lhe disse, prosseguindo seu caminho.
— Ainda bem que eu trouxe os cartazes que eu fiz para o protesto contra o aumento da passagem — ele disse, retirando os rolos de cartolina — vou ao protesto a pé mesmo.
Assim Caíque foi andando até a manifestação, com os rolos de cartolina no braço, rumo para a aglomeração urbana reinvidicadora, para sentir o inebriante perfume misto de roll-on, CC, cebola e Musk, mas com algumas vantagens: muitas selfies, likes e retweets.

Persiste irritante

quarta-feira, 4 de março de 2015

     Mais uma cansativa noite em processo. Terei que conviver com essa inimiga que me visita toda noite por mais dias e dias até o fim dos tempos (Quer dizer, ao fim dos MEUS tempos)? A insônia me chama a conversar durante a noite e relutante viro de lado na cama para que tal não me atormente mais. Em vão, a danada parece disposta a me entreter a qualquer custo.
     No fim, acabo cedendo minha noite de sono àquela persistente irritante. Conversamos sobre assuntos que minha rotina corriqueira não permitia sequer imaginar. Muitas coisas para pensar, coisas que esqueci de refletir ou que achei banal demais na hora.
     O que vou fazer da vida? Que medidas devo tomar a partir amanhã quando acordar? Será que devo chamar aquela garota pra sair? Será que tem episódio novo daquela série que estou acompanhando? O que vou comer amanhã? O que tem de bom na geladeira?
     Esta pergunta me faz esquecer da visita não tão inesperada e ir direto pra cozinha. Como não havia pensado naquilo antes? O motivo da insônia vir ao meu encontro era a fome que passei durante todo o dia e - novamente - por causa da rotina corriqueira esqueci-me de comer.
     Quem diria, não é verdade, leitor? A insônia não veio ao meu encontro, mas sim ao encontro de sua prima distante, a fome. Preparei um caneca de chocolate quente para tomar enquanto lia meu livro favorito debaixo das cobertas naquela madrugada congelante.
     Lambendo a última gota de chocolate quente da caneca, guardei o livro e me deitei, com a certeza de que a insônia teria ido em busca de outro palerma que esquecera de comer por causa de uma rotina corriqueira.

Autor: André Figueiredo de Melo - Areado/ MG

Dia de aguaceiro

segunda-feira, 2 de março de 2015

      Pelas grandes janelas da escola, dava para ver a previsão passada no jornal se concretizando. O céu estava realmente negro e as nuvens pareciam tão pesadas que poderiam desabar a qualquer momento.
      Bate o sinal, meio dia e vinte, hora de ir para casa. Um tumulto já esperado se formou nas rampas que dão acesso ao segundo andar do prédio. Todos queriam chegar em casa antes da tempestade.
      Mesmo morando bem perto, desci a pequena e pacata rua rapidamente, mas minha casa parecia nunca chegar.
      Assim que cheguei a chuva caiu, começou devagar, mas em poucos minutos ficou tao intensa que as gotas, que batiam no teto, mais pareciam pedras.
      Pela janela da cozinha, eu via as plantas do quintal sendo massacradas pela tempestade, sem nenhuma forma de defesa, elas, como muitas pessoas queriam que o sol voltasse logo.
      Depois de quase duas horas de chuva, o tempo finalmente abriu. Fui para fora conferir os estragos causados pela mesma, e os estragos foram grandes.
      As folhas das árvores ficaram todas quebradas; as flores caídas, murchas, com suas pétalas arrancadas e todas embarreadas; na velha aceroleira não sobrou uma fruta se quer; nos vizinhos, telhas se soltaram do telhado , arvores foram arrancadas , houveram estragos por toda a cidade.
     No outro dia vieram os comentários negativos e as reclamações, pessoas de todas as idades falando sobre a chuva , e então surgiram frases como "para que chover?", "odeio chuva" e até "nossa, São Pedro judiou".
    Para mim não foi problema ,amo chuva , mas o ser humano nunca está satisfeito, se chove:"odeio chuva" se não chove, vem a falta d'água e mais reclamações.

Maria Luiza Pacheco_Nuporanga, Sp

Consciência de menininha

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

       - Vai embora, ele já foi.
          Minha consciência me instruía, mas eu não era capaz de mover um músculo para sair do lugar. Parada ali no meio da rua, eu estava perdida em meus pensamentos. O que teria sido realmente aquilo? O que de fato acabara de acontecer? Eu já não sabia de mais nada.
          Tentava a todo custo lembrar, mais minha mente tinha transformado tudo aquilo num imenso borrão de tinta e, eu não conseguia ver nada. Estava como uma míope sem óculos.
          Aquilo havia virado mais uma lembrança esquecida na minha gaveta de meias.
          Vamos do começo: Estávamos ele e eu andando pela rua, conversando sobre... Sobre o quê mesmo? Talvez fosse sobre refrigerantes ou alguma besteira do tipo... E depois, o que aconteceu? Teria ele tentado me beijar? Eu ainda consigo sentir a pressão dos lábios quentes dele sobre o meu olho esquerdo. O que eu disse quando ele mecanicamente corou? Como ele reagiu depois do empurrão que eu dei nele? Tinha tudo ficado um pouco nebuloso e agora sentia que estavam um pouco apagadas em minha mente essas impressões.
          Mas lá ia ele já tão longe, quase no fim da rua, e eu ainda continuava ali. Estática. Estava tudo muito confuso e ilusório.
          Lembro-me apenas dele ser meu melhor amigo, mas do resto, nem do meu próprio nome me recordo mais. Eu estava como quando se acorda de um sonho bom sem se lembrar de nada do devaneio... Estava apenas sentindo uma forte sensação, talvez algum novo sentimento... Talvez amor. Só não sabia eu se isso era bom ou ruim.
          - Ele não vai voltar, pode ir pra casa.
          Minha consciência insistia. Mas ir pra onde? Sem ele por perto eu já não sei quem sou, onde moro ou como respirar... Estava sufocada, tinha esquecido como viver. Como seria dali em diante? Ele continuaria meu amigo, ou aquela situação de quase beijo ia estragar tudo aquilo que havíamos passado juntos?
          Queria gritar a plenos pulmões a resposta que ele – com todo o carinho - me pedira, que eu o amava... Mas eu estava hipnotizada pelo calor do momento.
          - Ta vendo?! Ele não volta, pode ir embora.
          A voz da minha consciência tornou a repetir, mas agora ela parecia mais perto e infantil que de costume. Virei o rosto à procura daquela voz tão angelical e meu olhar foi atraído para uma menininha de uns seis aninhos sentada no meio fio da rua deserta. Vestida de cor de rosa, e com lacinhos nos cabelos era ela quem me aconselhava a ir embora. Teria ela assistido toda aquela cena? Saberia ela responder a todas as minhas perguntas? Certamente flagrara meu olhar vago que insistia em acompanhar o menino bonito que já tinha virado a esquina. Enrubesci no mesmo instante.
          Acordei do meu transe fazendo um sinal de positivo com o polegar para ela, fingindo estar tudo bem. Ela, a minha doce consciência, sorriu mostrando uma porteirinha e aquele sorriso me seguiu pelo caminho até sumir em mim.

Autora: Danielly Lopes - Araguaína/TO
 

Tradição

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Chego à igreja muito antes da missa começar, a fim de observar os fiéis em seu culto costumeiro. Sento-me no último banco da fileira para poder observar do alto em diagonal a igreja por completo.  Em meia hora, todos os assentos estavam lotados para a missa das seis da tarde. Velhas caquéticas, gordos, magros, crianças e adolescentes se acomodam e cochicham uns aos outros à espera do padre chegar.
                A maioria ignora o cartaz avisando para desligar os celulares, e eu também sigo o exemplo; estava irrequieto demais para ficar vegetando em um banco. Já muito atrasado, o homem da batina adentra a igreja em uma procissão de velas e crianças de véu branco. O padre sobe ao altar sem fôlego, a barriga protuberante prestes a estourar o justilho da roupa. Seu rosto e braços eram vermelho pimentão, o que sugeria problemas cardíacos ou quem sabe um vício de álcool. Uma ministra da igreja se endireita atrás de um altar e começa a leitura das pessoas que já morreram, dos aniversariantes, recém-casados e celebrantes da missa de sétimo dia, mas ninguém se importava ou prestava atenção, estavam mais interessados na fofoca do final de semana.
E então o sermão começa. Todos se sentam e se levantam incontáveis vezes, recitamos as frases nas horas certas automaticamente, sem fé e em tom fúnebre, ninguém parecia mais saber o que dizia. O padre gritava rouco no altar ‘’palavra do Senhor’’ e sua plateia morta rebatia ‘’amém’’, e uma débil salva de palmas ressonava a igreja. Entremeando uma leitura a outra, os cânticos se iniciam, e a banda da comunidade tamborila em seus instrumentos, enquanto uma voz potente cantava em excelência a Deus. Neste momento todos relaxam, alguns chegam a acompanhar as músicas, porém este coral era em demasia tênue, e escapou dos meus ouvidos identificar a quem pertenciam suas vozes.
O cesto do dízimo corre de mão em mão ao longo das fileiras dos bancos; algumas pessoas colocam moedas de cinquenta ou um real, mas a maioria simplesmente encosta a mão no fundo do balaio em respeito e repassa o cesto para a pessoa mais próxima. Pareciam mais interessados em comprar um saco de pipoca ao final da missa do que doar alguns trocados para a igreja.
Os minutos se arrastam e a maioria já estava cansada daquele fingimento de aparências; crianças pediam para ir ao banheiro e não voltavam mais, bebês berravam um choro agudo e suas mães manobravam o peso para o outro braço, inquietas, exaustas. Os homens lutavam com as pálpebras para permanecerem acordados, enquanto os adolescentes já estavam do lado de fora da igreja, beijando as sombras da grande cruz que se situava no estacionamento.
                E então chega a hora da distribuição da hóstia, rapidamente uma fileira de católicos se forma em cada viga da igreja, misteriosamente esperançosa e com fé de sobra. Acabei notando que o momento do corpo de Cristo simbolizava o final da missa se aproximando, por isso ficaram tão animados repentinamente. Com hóstia em mãos, todos se sentam em seus respectivos lugares e a colocam na boca. Um silêncio toma o local, a maioria estava ajoelhada na tábua que fica presa atrás dos bancos. Instigava-me saber se eles estavam realmente rezando ou se apenas fingiam, de olhos fechados e mãos pressionadas em prece, cogitando em sua mente quanto tempo mais deveriam ficar naquela posição dolorosa para os joelhos.
O momento da paz de Cristo se aproxima, e todos se abraçam e se cumprimentam, com um largo sorriso no rosto e um alívio de dever cumprido nos ombros. Então todos vão embora com a certeza de uma vaga no Céu garantida.

Com todos os assentos vazios e sem cabeças para esconder a minha visão, a primeira fileira de bancos me surpreende. Ainda de joelhos no chão, enquanto o padre e os ministros arrumavam as suas coisas para partir, uma fila de idosos orava silenciosamente fitando uma cruz na parede. Sua pele enrugada aflita e esperançosa, as mãos juntas em profunda devoção a Jesus. Todos agradeceram mais um dia de vida e depois pediram por saúde e mais anos para acompanhar a vida de seus filhos e netos. Depois se levantaram com mesuras uns para os outros e foram embora. 


Helder Pedrosa, Lagoa da Prata/Minas Gerais. 

Os mistérios do amor

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015



        No mundo em que vivemos observamos, muitas pessoas, que escondem suas origens e sentimentos, por medo  do que as pessoas vão falar ou pensar.
      Numa bela tarde de sol, Gustavo decide sair para caminhar na praia. Ele é um homem muito sensível, que deixou com que seu coração ficasse duro e fechado para o amor. Mas, a vida ainda tinha muitas surpresas reservadas para ele.
         O feriado de carnaval trazia consigo a mais bela dessas surpresas. Gustavo decide convidar alguns amigos para passar o feriado no sítio, não demorou muito e logo fizeram uma roda e começaram a falar sobre casamento. Ele acabou se retirando da roda, e resolveu caminhar. Sílvia, irmã de um amigo, ficou observando de longe. Cada passo que ele dava... Sílvia é uma mulher muito linda, mas que por alguma razão se sentia sozinha. Gustavo estava caminhando, e começou a olhar para as estrelas, ele ficou impressionado com  tanta beleza, e ficou imaginando, quanto tempo ele demorou para perceber isso. Sílvia, logo observa que Gustavo deita na grama e decide se aproximar dele. Ela se aproxima e deita lentamente ao seu lado, e acaba escutando o pedido  que ele faz a Deus, que dizia assim:
        - Senhor, tu conheces o meu coração e sabes o quanto, estou cansado de ser sozinho no mundo, de não ter nenhuma companhia.
Logo ele percebe, uma pessoa ao seu lado. Ele fica constrangido. Sílvia olha em seus olhos e diz:
        -Sabe,  eu não pude deixar de ouvir seu desabafo a Deus. Perdoe-me , eu não quis ser indelicada.
 Gustavo responde:
        - Os homens não costumam fazer esse tipo de pedidos, não é mesmo? Homens como eu, nasceram para serem firmes sempre, como se o sentimento fosse algo vergonhoso,  mas eu não tenho vergonha, de dizer que as vezes me sinto sozinho. Sílvia, olha para ele  e diz:
        - Engraçado, eu fiz o mesmo pedido a Deus.
 Gustavo, assustado diz:
        -  O mesmo? Nossa que coincidência!
Sílvia olha para os lados e responde:
        - Sabe, a vida é uma viagem para um caminho escuro quando se está sozinha, eu pedi um pouco de luz no meu coração.
 Gustavo fica tão encantado, que acaba  esquecendo de se apresentar.
        - Ops! Me chamo Gustavo. Qual seu nome?
        - Meu nome é Sílvia!
 Gustavo já encantado por tanta graciosidade diz:
         - Sílvia, você é linda como as estrelas, como o luz branca do luar e encantadora como a noite.
        Os dois se olham por alguns segundos, e acabam se beijando apaixonadamente.
O amor é o ingrediente mais importante da vida de um ser humano, ou você decide ser amado, ou a solidão da vida te corrói lentamente.

Autora: Rebeca Ramos de Melo - Manaus/AM
       
     
 







Lágrimas e estrelas

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Não é uma noite como as outras, pelo menos não para ela. A lua e as estrelas, que brilham vigorosamente, não a animam, pelo contrário, alimentam ainda mais sua dor.
Carolina é uma adolescente de imenso coração, a felicidade corre por suas artérias, seus olhos escuros transparecem todo o amor e empatia que essa garota tem, pelo menos até ontem.
Para que entenda o motivo de tal tristeza, voltaremos a, aproximadamente, um mês atrás.
Era uma noite linda, o céu estava tão iluminado pelas estrelas quanto uma cidade na noite de natal. Carol, como era chamada, comemorava, junto a alguns colegas, o aniversário de sua melhor amiga, até que algo a aborreceu.
O que aconteceu exatamente somente Ana, a aniversariante, sabe, mas eu o que desencadeia nossa história.
Carol saiu do salão, se apoiou em um carro branco, estacionado no jardim daquele lugar, olhou para o céu e começou a ligar as estrelas, procurando encontrar imagens.
Já haviam se passado uns quarenta minutos quando uma voz masculina, talvez a voz de tom mais masculino que ela já tinha escutado a tirou de seu transe.
Lindo, não é? Disse o dono da voz, aliás, dono também do carro.
Carolina acenou com a cabeça, fazendo um tímido e inseguro sinal de sim.
Eduardo é seu nome, rapaz alto, de olhos escuros e cabelos negros, simpático e encantador. Apoiou-se junto a ela e então começaram a conversar.
Horas se passaram e a menina tinha que ir para casa, desencostou do carro e disse adeus. Eduardo não a deixou ir, havia gostado dela.
Ela já estava de costas, caminhando para fora dali, quando o rapaz segurou seu braço, puxou-a para perto dele e a beijou.
Ana assistiu aquela cena, escondida entre algumas àrvores que se encontravam a poucos metros do carro. Sentiu ciúmes, mas não teve reação.
Carol e Edu passaram a se encontrar todos os dias. Iam para barzinhos, restaurantes e até saiam para dançar, mas o programa predileto era sentar na grama e contar as infinitas estrelas.
E assim três, quase quatro semanas, ou seja, até ontem.
Já era noite e Carolina estava pronta para sair. Vestida com um lindo vestido preto, pouco acima de seus joelhos. Estava, sem dúvidas, radiante.
Eduardo chega, desce do carro e abre a porta para ela entrar, porém parecia culpado.Não a beijou, não a abraçou, apenas a levou em um lugar calmo onde poderiam conversar a sós.
Então uma notícia da qual ela não esperava: Ana havia se atirado para cima de seu amor, e ele se entregou.
Um grande silêncio se formou, nenhuma reação foi encontrada. Os dois entram no carro e voltam para casa da pobre menina traída.
O céu estava fechado, nuvens pretas impediram a passagem de qualquer luz. Carol entra e Eduardo, arrependido e vendo que acabara de perder seu amor, sai de cabeça baixa.
Decepcionada, Carolina entra no seu quarto aos prantos, se deita na cama e adormece.
Hoje, depois de acordada, não saiu do quarto, não comeu e nem se quer bebeu água. Inconsolada por ter perdido, de uma só vez, sua melhor amiga e o jovem que ama.
Agora ela olha pela janela, as estrelas brilham como no dia que os dois se conheceram, mas agora não parecem brilhantes e radiantes, parecem tristes. Cada estrela uma lágrima, incontáveis lágrimas.

Autora: Maria Luiza Pacheco_Nuporanga, SP


Prelúdio

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Lá estava, dentro de uma casa assustadoramente organizada, num canto misterioso que separava-se do resto, por apenas uma porta, poucos sabem, mas havia um universo diferente em cada cômodo daquele lar complexo.
Naquele quarto a luz centrava-se apenas na escrivaninha, em cima dela havia uma xícara de café rachada, porem cheia, e um livro misterioso de páginas cujo o tempo pintou de amarelo, Iori folheava cada pagina atentamente. O livro possuía um titulo curioso, ''Prelúdio Do Fim'' seu pai lhe dera aquele livro a pouco tempo, era uma joia da família, apesar do livro ter sido roubado de uma livraria sem nome e endereço, pelo seu bisavô, devido a sua cleptomania, seu pai escondera o livro das chamas.
O livro falava sobre muitas coisas, filosofias, guerras desconhecidas, doutrinas e até plantas alucinógenas. Chegando ao fim, encontrou páginas em branco e palavras começaram a surgir, o silêncio foi interrompido por uma melodia perfeita, de primeira reconheceu, era Chopin Nocturne Op.9 No.2.
As palavras que emergiam nas paginas limpas diziam ''já é hora de despertar'' Yoham não sentiu medo, de primeira achou que era uma alucinação, se deu conta que estava acordado e totalmente lúcido. Antes de sua linha de raciocínio acabar a campainha tocou, Ele abriu a porta e viu uma fumaça e conforme a fumaça se diluía aparecia um homem alto, negro de olhos azuis, usava suspensórios e carregava um violão.
Ficaram boa parte do tempo se encarando ate que Iori resolveu abrir a boca.
- Tenho certeza que conheço você de algum lugar. Oh meu Deus, você é Jimi Hendrix?
O homem sorriu e disse:
- Não vai me convidar pra entrar?
Ele desapareceu, Iori suspirou, fechou a porta e quando olhou pra trás, la estava o homem tocando seu violão na poltrona da sala.
  Se conformou e disse:
- Quer algo pra beber, chá ou café?
O homem balançou a cabeça, com um gesto positivo.
- Ok, vou interpretar isso como um café.
O Homem acendeu um enorme baseado, quando Iori sentou no chão e bebeu, logo cuspiu, e o Homem começou a rir.
- O que foi isso?
- O melhor Whisky escocês meu caro.
-Quem é você?
- Alguns me chamam de morte, outros de Jesus Cristo, pode me chamar do que quiser, sou você, sou a natureza, digamos que faço parte de tudo e tudo faz parte de mim.
Ele ilustrava tudo na fumaça, tocava seu violão sem parar, e esclarecia todas as duvidas que Iori tinha sobre o Universo. E por fim o homem disse:
- Chegou a minha hora, nos veremos em breve, hasta lá vista baby.
E desapareceu feito fumaça. Iori acordou, pensou que tudo aquilo fosse um sonho, até que olhou para o canto da sala, e la estava, um violão e uma garrafa de Whisky.

Autor: Gabriel Soares - Brasilia/DF

Realidade Cinza

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O dia começou cinza. Na inexpressão das paredes, no "crec-crec" de pisar em folhas secas e na perplexidade estampada nos rostos das pessoas.
Digerir o que acabaram de saber, era uma tarefa difícil, mas mais difícil era entender o porquê dela ter feito isso.
Eu sei o porquê. Aliás, sou o único que sabe. Você também quer saber não é leitor? Pois bem, saberá, mas só continue se tiver estômago, estou avisando.
Ele era um pai "exemplar", ela uma filha "adorável", a mãe "dedicada". Enfim, uma família completa e feliz aos olhos da sociedade. Até a mãe sair de casa. Leitor, lhe aviso novamente: Se não tens estômago suficiente, NÃO CONTINUE.
Ela era abusada por seu "pai" - se é que posso usar esse termo para designar uma pessoa sem caráter como essa -, violentada pela pessoa que deveria ser o seu porto seguro. Na cama, no boxe do banheiro, no carpete da sala, do modo mais nojento possível: Ele ia, "esfregava-se" nela, batia em seu rosto e se retirava como se nada tivesse acontecido, e recebia sua mãe com um sorriso cínico.
Ela já havia se habituado a essa rotina de humilhações, mas então descobriu: estava grávida do seu próprio progenitor. Foi a gota d'água. Talvez a dor emocional doesse mais que a física, e ela resolveu testar. Adeus humilhação! Ela havia prometido se livrar da mesma, e tinha dado a vida como garantia. Um pacto com o destino do qual ninguém desconfiava.
Seu sangue ainda está empossado no boxe do banheiro - um dos palcos dos horrores que levaram a este suicídio. Seus olhos estão opacos, e as moscas insistem em pousar nos cortes de canivete que mapeiam seu corpo.
Até me lembro de alguns versos daquela música do Legião Urbana, Clarisse, que martelam em minha mente desde que recebi a notícia de sua morte alguns minutos atrás:
E Clarisse está trancada no banheiro/E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete/Deitada no canto seus tornozelos sangram/E a dor é menor do que parece/Quando ela se corta ela se esquece/Que é impossível ter da vida calma e força (...) Clarisse só tem 14 anos.
Agora que você já sabe de tudo, me desculpe, não queria que seu dia também ficasse cinza.

Autor: Cleiton Andrade - Rio Pardo/RS

Ops!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Sexta-feira, à noite, eu e minha amiga Leidneya estávamos nos arrumando para ir ao forró, porque, após uma longa semana de trabalho duro, a melhor coisa que fazíamos para nos divertir era ir ao Espaço Verde. Lá, além de tirarmos todo o cansaço dançando, também fazíamos boas amizades. Eu e Leidneya somos amigas de infância, nossa amizade começou desde o tempo em que o grupo Rouge fazia sucesso com o hit Ragatanga, inclusive esse é o hit que embalou e ainda embala nossa amizade até os dias atuais.
Hoje estávamos com o pensamento diferente, pois não fomos só para dançar; dessa vez estávamos dispostas a encontrar o amor de nossa vida lá. Assim, logo que chegamos, começamos a observar : estava tudo muito bonito, todos muito animados, dançando, muitos solteiros bonitões e, o melhor de tudo, mulher entrava na faixa. Depois que entramos a fila de homens querendo dançar com a gente começou a aumentar. No meio do salão, enquanto dançávamos ao som de Xote das meninas, de Luiz Gonzaga, Leidneya começou a me cutucar para avisar que tinha um bonitão olhando para mim. Eu logo me empolguei, disse para ela que se ele tivesse a fim viria atrás de mim assim que terminasse tudo.
Mais tarde, quando o relógio marcou 23 horas, Deuzemar, nosso amigo, começou a nos chamar para ir embora. Assim que chegamos à parada do ônibus, tivemos uma surpresa: o bonitão da festa estava vindo em nossa direção, Leidneya disse:
- Edneya, mulher, olha só quem tá ali!
Eu, superfeliz, passei a mão no cabelo, ajustei a roupa e disse:
- Passou a noite toda olhando pra mim no forró. Hoje tô com tudo!
Segundos depois o bonitão se aproximou de mim e disse:
- Ai, gata, passa o celular!
Comecei a falar meu número, até que ele me interrompeu:
- É um assalto!
Eu crente que o cara estava a fim de mim! Mas que nada! Ele roubou tudo que eu tinha, até meu respeito.

Autora: Aracy Frutuoso - Fortaleza/CE

Ela vem em Tsunami

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Naquela noite, ele sentou-se pra assistir o jogo, como de costume. Ele ali, em frente a TV, e eu preparando o nosso jantar. Lhe situarei agora meu caro leitor, do início, ao contrário chegará ao fim desta crônica sem o prazer de saber quem são seus personagens.
Era pra ser um dia como qualquer outro. Acordamos, nos cumprimentamos, falamos sobre a pequena que a alguns dias havia passado em qualquer bobagem (sem interesse algum), ele contou-me também sobre a nova moça que chegara para trabalhar na empresa, eu não tinha tanto para dizer, parecia ser tão interessante a donzela de olhos viramundescos, que continuei a escutar. Era incessante. Me dizia, de sua graça e de sua beleza, de como era bem humorada, sugeriu que ficássemos amigas - ela iria ser uma ótima companhia para as tardes solitárias.
Na hora do almoço, falou um pouco mais da menina, dizia que inspirava juventude e era jovem, tinha lá seus vinte anos -uma mulher como eu que estava a caminhar para os quarenta e cinco, já não era tão radiante assim, muito menos musa inspiradora. Fiquei insegura, já desconfiava dele a algum tempo, não que fosse algo sério, mas as inocentes saídas aos finais de semana, pra tomar uma com os amigos, agora tinham o cruel ar da dúvida: o que será que fazia depois do jogo de sinuca após umas cervejinhas? - eu não sabia meu amigo, não sabia!
Então decidi me livrar daquilo de uma só vez, durante o jantar iria dizer que já sabia de tudo, das traições, das mentiras - de tudo. Então voltamos ao começo da história leitor. O jogo acabara e o jantar estava posto sobre a mesa. Chegou a hora. Trêmula e com a boca seca, comecei a falar:
- Então, quer me contar algo? Sobre alguém, talvez?
- O que seria? Diga logo mulher! - bravejou cínico.
- A vagabunda que você anda encontrando nos últimos dias, quem é?!
- Está louca?! Não tenho ninguém a não ser você!
- E a saída semana passada para encontra-la?
- Eu só tenho você!
- Ah, coitado, pensa que me engana, eu já sei das suas descobertas por outras camas!
- Ah, por favor, isso não é traição!
- Claro que é, passou noites com outras mulheres!
- Se você é a mulher que levo para o motel, você não é minha amante, literalmente eu não te traí.
- Não mude de assunto!
- Pelo amor de Deus, temos que para com esta história de apimentar o casamento, já gastei horrores em motel, não tem como ser mais barato esse negócio? Mania doida de querer ser a mulher, a amante, a secretária tarada... Assim não aguento não!
- É bom sair do previsível as vezes!
- Ande mulher deixa de coisa, vamos comer.

Autora: Maria Castro - Arneiroz/CE

Intrinsecamente

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Ao lermos fazemos um gesto involuntário quando estamos nela. Ao apreciarmos um café, temos a mesma sensação de quando éramos criança, às vezes até nos lembramos de quando ficávamos no colo do nosso avô. E... ao olharmos para ela recebemos um convite.
Como uma peça tão banal pode ser, ao mesmo tempo, algo tão indispensável? Aos escritores e poetas ela se torna sempre convidativa, isso por que lá eles podem se sentir à vontade. Ou, quem sabe, mega inspirados.
Nesta hora lembro- me de alguém, a Tia Nina, que de forma alguma deixava esta faltar em sua casa:
- Tia, tia!
- O que queres agora, criança rabugenta?
- Deixe-me levá-la pra casa hoje, só por hoje!
- Já lhe disse que não. Agora, volte para o lugar de onde veio!
Ora Tia Nina, como pode fazer algo assim com uma simples criança?! Mas sabe, leitor, a verdade é que Tia Nina tinha consciência do valor inestimável daquela peça.
Mas mal sabia a Tia Nina que um dia sua amável sobrinha viraria aprendiz de escritora, e que assim como ela, prezaria tanto a tal cadeira de balanço.

Autora: Letícia Ganassini - Brasília/DF

Inveja, ou, O Combustível da Arte

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Era uma vez que acordei mal-humorado. Antes de abrir os olhos, fiquei por uns momentos ouvindo o meu despertador, e é realmente incrível como uma pessoa pode odiar qualquer som só porque ele a fez acordar. Eu, por exemplo, vivo em medo constante de odiar pianos e passarinhos apenas porque é esse o som que me chama todas as manhãs. Ao contrário do que dizem os otimistas, o canto dos espécimes passeriformes é um ruído extremamente irritante, comparável ao grito de um violino desafinado, quando é a primeira coisa que se ouve pela manhã. Quanto ao piano, não faço comparação, simplesmente por não conseguir explicar a ira que as teclas de marfim me causam toda aurora. Felizmente, esse meu ódio é direcionado apenas à certa junção de melodias destes dois fazedores de barulho que me desperta seis dos sete dias da semana.
Silenciei aquele terrível punhado de sons e me levantei. Chovia, e fazia sol. Fiquei mais feliz: quem sabe a aula de educação física não seria cancelada? (Digo em avanço, não foi). Toda e qualquer pessoa que viva em um país tropical, em que os fenômenos meteorológicos não se apresentam tão bem definidos como nas áreas temperadas, sabe muito bem o que acontece quando um raio de sol esbarra numa gotícula d’água suspensa no ar: esse raio, uno e branco, é dividido pela água nas sete cores do espectro visível. Aos que não apreciam a linguagem rebuscada, explicito que se trata dum arco-íris. Esta ímpar demonstração natural do funcionamento de prismas, que geralmente deixa o coração feliz, sempre teve em mim um efeito estranho, o mesmo que têm as obras de arte. Eu olho para elas, ao mesmo tempo com reverência e inveja; quem me dera poder fazer algo tão belo! Bem, não sou Klimt, nem sou as leis da óptica, e, sabendo que provavelmente nunca pintarei um retrado de Adele Bloch-Bauer e que muito menos dividirei a luz ao toque, fiquei melancólico. Perdão, retifico-me, fiquei nostálgico. Não são a mesma coisa, e quem já sentiu ambos sabe bem do que falo.
O que mais aconteceu no meu dia, pouco importa. É importante apenas salientar que a sensação de falta, de saudade, me acompanhou com o sol. Se eu pudesse apenas ter ficado a manhã toda sentado, observando o arco-íris, seria tão bom! Os fenômenos naturais têm um belo jeito de nos fazer sentir pequeneza, uma certa inferioridade. Mas não entenda mal o que digo. Veja, ser inferior à natureza é completamente diferente de ser inferior a outro ser. A natureza não nos demanda nada, apenas nos mostra o que conhece. Nos ensina, não nos pede. Quem nunca sentiu um arrepio ao ouvir um trovão ou se sentiu deselegante quando via uma folha ir com tanta fluidez ao chão? Queria tanto ter ficado me sentindo pequeno em comparação ao arco-íris, em vez de ter que sair de casa e me sentir pequeno e só pequeno, sem me comparar a nada. Mas a verdade é que me senti, naquele dia todo, como se tivesse perdido cinco centímetros. Como se estivesse curvado. Sentia falta de algo. Finalmente cheguei à minha casa. Sentei na rede, fechei os olhos. Comecei a cantarolar La vie en rose e, de repente, senti vontade de ter mais inveja. Coloquei a tocar As quatro estações. Então descobri porque me sentia tão pequeno. Descobri do que sentia falta. Apreciei a música e o alívio de saber o porquê da sensação estranha. Sabia bem o que queria, naquele momento: escrever.

Autor: Víctor Chagas - Recife/PE

Menina Miçanga

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

É de tarde e o temporal está se anunciando. Durante os últimos dias escaldantes, o desejo é de chuva. Que ela venha. E rápido.
Agora, relâmpagos riscam o céu, que de azul plácido foi para cinza chumbo, causando certa apreensão aqui em casa. Mas por parte dos meus pais, porque eu estava tranquilo. Minha mãe corre atônita, tapando os espelhos com toalhas de banho. Meu pai fazia uma cruz de sal e erva-mate na madeira mogno da mesa, no propósito de espantar os perigos que a chuva podia trazer.
- Santa Bárbara, São Jerônimo! - berra minha mãe, assim que um trovão abala nossos tímpanos.
Na janela da sala observo a tempestade - é isso que faço quando o clima está assim.
A chuva começa a cair. Pingos grossos, em demasia, batiam no asfalto da rua e voltavam, como a luz bate no espelho e reflete. Tal fato deixava as sinalizações, lojas, e quase tudo, imperceptível.
Meus olhos se acostumam com a vista - a imperceptibilidade do pequeno mundo da minha janela - até que algo interrompe a visão.
É uma menina, totalmente encharcada, com uma beleza excepcional.
Ela abre os braços e dá piruetas, a camiseta branca molhada se ajusta em seu corpo perfeito. Se abriga no que parece ser a marquise de uma loja, olha para frente, e me detecta.
Seu olhar bate de frente com o meu e ela faz sinal para me unir a eles - ela, a chuva, e a marquise.
Sem pestanejar saí correndo pela porta, meus pais já haviam se recolhido, e a menina estava a poucos metros de distância.
A marquise era de fato uma marquise. A garota era ainda mais bela. Como num ato automático, nos sentamos na soleira da vitrine da loja. Ela usava uma pulseira de miçangas e girava-a no dedo como se gira um bambolê na cintura.
- Oi - eu disse, rompendo o silêncio que estava instaurado.
- Olá - ela respondeu, prestando atenção no cintilar das miçangas na órbita em volta do seu dedo.
Em súbito, a moça me puxa pelo braço, me levando de volta a chuva, me fazendo seguir suas piruetas e abrir os braços como um maluco, gritando "sinta a chuva lavar sua mente".
De repente, sem pensar, a puxo para perto de mim e nossos peitos se chocam, coloco uma mecha de seu cabelo castanho atrás de sua orelha, e lhe dou um beijo. Nossas bocas ficam entrelaçadas por um tempo que parece ser uma eternidade. Quando terminamos ela abre um largo sorriso, que vindo dela só podia ser magnífico, e diz:
- Prazer em te conhecer.
Eu a beijo novamente, e então ela sai correndo pela rua, agora mais visível, e se vira uma vez para sorrir novamente, pra só então, sumir pela saída a esquerda.
Volto a marquise; sento na soleira da vitrine novamente.
- Não sei o nome dela, número, tampouco endereço. Ela não me deixou nada - digo, pondo os pensamentos em voz alta.
Olho para o lado e percebo que ela esqueceu a pulseira de miçangas.
Miçangas laranjas e roxas, sustentadas por um vil fio de náilon. Talvez feita em casa ou comprada de um ambulante.
- Pelo menos isso! - exclamei.
Já que ela não estava ali, as miçangas a representariam então, mantendo o quarteto: A chuva, a marquise, eu e a menina, agora uma menina miçanga.
A chuva ia indo embora, a cruz de sal e erva estava funcionando.
Com meus passos lentos me dirigia novamente a minha residência, girando a pulseira no dedo, observando o cintilar e a órbita das miçangas, tal como ela faz.

Autor: Cleiton Andrade - Rio Pardo/RS

O Templo

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O sol ilumina meu rosto me lembrando que é hora de acordar.
Me acordo pronto para conhecer outro Universo.
Pelas ruas vejo o vaivém da cidade grande, fico perplexo com todo aquele "fuzuê" entre pessoas e veículos. Quando me deixo desconcentrar, já é hora de descer daquela aglomeração de palhas soltas ao vento. Finalmente chego ao local onde já me deu alegrias e tristezas - estou no Templo.
Assim como na Torre de Babel, ouço línguas estrangeiras. Dialetos chamam minha atenção. Me sinto em outro país, mas na verdade só estou fora do Sergipe mesmo.
De repente interrompem minha observação. Com um jeito gentil me convidam a entrar naquilo que seria singular. A caminhada é um pouco longa, mas minhas pernas não queriam parar. O entusiasmo já estava evidente no meu rosto. Do terceiro andar eu conseguia rever todos os lances mais incríveis. Volto no tempo e enxergo torcedores lotando o local, olho para baixo e me lembro de um lance que não posso esquecer: A final do Campeonato Carioca. Meus olhos ficaram vidrados na cena que se desenrolava, observava as minúcias do jogo com exímia atenção.
Aos 43 minutos do segundo tempo uma falta à favor do Rubro Negro. O sacerdote toma a bola nas mãos e respira fundo, concentrando-se. Ao soar do apito do árbitro ele corre e bate a falta com perfeição. A torcida se junta e grita numa voz só, os sotaques se difundem para berrar a palavra tão esperada por todos:
- Gooooooool!!!!!
Não era apenas um gol, era um milagre. Por isso chamamos-o de Templo, onde só a bola nos proporciona um milagre desses. Esse é o Templo, esse é o Maracanã.

Autor: João Rafael - Muribeca/SE