Naquela noite, ele sentou-se pra assistir o jogo, como de costume. Ele ali, em frente a TV, e eu preparando o nosso jantar. Lhe situarei agora meu caro leitor, do início, ao contrário chegará ao fim desta crônica sem o prazer de saber quem são seus personagens.
Era pra ser um dia como qualquer outro. Acordamos, nos cumprimentamos, falamos sobre a pequena que a alguns dias havia passado em qualquer bobagem (sem interesse algum), ele contou-me também sobre a nova moça que chegara para trabalhar na empresa, eu não tinha tanto para dizer, parecia ser tão interessante a donzela de olhos viramundescos, que continuei a escutar. Era incessante. Me dizia, de sua graça e de sua beleza, de como era bem humorada, sugeriu que ficássemos amigas - ela iria ser uma ótima companhia para as tardes solitárias.
Na hora do almoço, falou um pouco mais da menina, dizia que inspirava juventude e era jovem, tinha lá seus vinte anos -uma mulher como eu que estava a caminhar para os quarenta e cinco, já não era tão radiante assim, muito menos musa inspiradora. Fiquei insegura, já desconfiava dele a algum tempo, não que fosse algo sério, mas as inocentes saídas aos finais de semana, pra tomar uma com os amigos, agora tinham o cruel ar da dúvida: o que será que fazia depois do jogo de sinuca após umas cervejinhas? - eu não sabia meu amigo, não sabia!
Então decidi me livrar daquilo de uma só vez, durante o jantar iria dizer que já sabia de tudo, das traições, das mentiras - de tudo. Então voltamos ao começo da história leitor. O jogo acabara e o jantar estava posto sobre a mesa. Chegou a hora. Trêmula e com a boca seca, comecei a falar:
- Então, quer me contar algo? Sobre alguém, talvez?
- O que seria? Diga logo mulher! - bravejou cínico.
- A vagabunda que você anda encontrando nos últimos dias, quem é?!
- Está louca?! Não tenho ninguém a não ser você!
- E a saída semana passada para encontra-la?
- Eu só tenho você!
- Ah, coitado, pensa que me engana, eu já sei das suas descobertas por outras camas!
- Ah, por favor, isso não é traição!
- Claro que é, passou noites com outras mulheres!
- Se você é a mulher que levo para o motel, você não é minha amante, literalmente eu não te traí.
- Não mude de assunto!
- Pelo amor de Deus, temos que para com esta história de apimentar o casamento, já gastei horrores em motel, não tem como ser mais barato esse negócio? Mania doida de querer ser a mulher, a amante, a secretária tarada... Assim não aguento não!
- É bom sair do previsível as vezes!
- Ande mulher deixa de coisa, vamos comer.
Autora: Maria Castro - Arneiroz/CE
Ela vem em Tsunami
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
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