Minha prima, meu irmão e eu, todos graciosamente vestidos
com trajes finos e cabelos cuidadosamente arrumados, nenhum fio fora do lugar.
A ansiedade tomava conta de nós, íamos jantar na casa dos pais de minha tia.
Estávamos prestes a conhecer a mãe, o pai e uma das irmãs
dela, mas dentro do carro, em meio a recados clichês como “se comportem” e “não
quero que tenham vergonha”, surge algo que prende minha atenção, um aviso:
- Só tomem cuidado com os cabelos! A kemily (a irmã) é
autista e, se não gostar de vocês, ela puxa!
Confesso que isso me incomodou, não o fato de ela ser
autista, mas sim o medo de não gostar de mim e, consequentemente, eu acabar
sendo agredida. Fiquei pensando nisso durante o caminho todo, pesei até em
prender meu cabelo, talvez fazer um coque, mas isso não ajudaria muito.
Não, caro leitor, não me orgulho de ter pensado de tal
maneira, mas como eu poderia ficar despreocupada? E se tudo desse errado? Logo
percebi que eles não deixariam que nada acontecesse, então, quando finalmente
chegamos, eu não pensei mais nesse assunto.
Descemos do carro já na garagem, quase não consegui me
equilibrar sobre meu salto, havia passado horas sentada e minhas pernas estavam
dormentes. Fomos recebidos pelo pai, que logo nos ofereceu cadeiras e algo para
beber.
Depois de trinta minutos sentada na varanda, olhei para
porta de vidro e vi uma imagem refletida: uma menina que parecia ter uns vinte
anos, um pouco mais baixa que eu, branca como neve, com cabelos loiros encaracolados
e lindos olhos verdes. Era Kemily.
Enquanto ela caminhava lentamente em minha direção, lembrei-me
do aviso dentro do carro, fiquei imóvel, olhei para minha tia e ela fez um
sinal, não era para eu temer.
Assim que estava frente a mim, começou a reparar minha
roupa, segurou a ponta da saia rodada de meu vestido, passou as mãos no meu cabelo,
totalmente diferente do dela, viu que eu estava maquiada e logo pediu para
também ficar.
Minha prima, alguns anos mais nova que eu e muito mimada,
fugiu dela. Desviou, não podia vê-la indo em sua direção que ia para outro
canto.
Já era tarde quando fomos jantar, mas em compensação a
comida estava ótima. E lá vem outro aviso:
- Fiquem atentos para “ninguém” pegar seus copos.
Eu estava sentada longe, não teria como ela alcançar meu
copo, mas meu irmão sentou bem na sua frente. Uma olhadinha para o lado e...
shuaa! Um copo cheio de Coca Cola gelada derramada na camisa branca do
pestinha.
Foi quase uma
hora rindo, afinal o atentado tinha tomado um banho inesperado. Finalmente ele
tinha ficado quieto.
A mãe dela, enquanto tirava a bagunça da mesa, nos contou
que fazia dois dias que ela estava doente e se recusava a comer, mas com a
gente lá não houve problemas, pelo contrário, comeu bastante e até começou a
roubar o frango que estava na tigela decorada com flores estacionada no centro
da mesa.
Com a barriga cheia e muito cansados, nos despedimos, a
viagem de volta era longa, não víamos a hora de chegarmos em casa e contar a
todos sobre o jantar, o banho de Coca e de como a prima mimada fugia da menina.
Muitos abraços, agradecimentos e “volte sempre” , entramos no carro e saímos de
lá olhando para trás, pensando em quando teríamos um outro jantar tão especial.
Autora: Maria Luiza Pacheco - Nuporanga/SP
"ÔôôÔ we close our eyes... the perfect life, life ..."
ResponderExcluirSou péssima em inglês, mas amo a música e consegui escutar ela enquanto li tua crônica, isso foi algo que aconteceu de verdade?? Fiquei muito ansiosa! Quase pude ver o brilho nos olhos dela pedindo pra se maquiar!!
Ficou linda, flor!
obrigada Dany, sim , isso realmente aconteceu rsrs
ExcluirAo, fafada, escreve muito pá caraiii...
ResponderExcluir