Pages

Tecnologia do Blogger.

Um jantar especial

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Minha prima, meu irmão e eu, todos graciosamente vestidos com trajes finos e cabelos cuidadosamente arrumados, nenhum fio fora do lugar. A ansiedade tomava conta de nós, íamos jantar na casa dos pais de minha tia.
Estávamos prestes a conhecer a mãe, o pai e uma das irmãs dela, mas dentro do carro, em meio a recados clichês como “se comportem” e “não quero que tenham vergonha”, surge algo que prende minha atenção, um aviso:
- Só tomem cuidado com os cabelos! A kemily (a irmã) é autista e, se não gostar de vocês, ela puxa!
Confesso que isso me incomodou, não o fato de ela ser autista, mas sim o medo de não gostar de mim e, consequentemente, eu acabar sendo agredida. Fiquei pensando nisso durante o caminho todo, pesei até em prender meu cabelo, talvez fazer um coque, mas isso não ajudaria muito.
Não, caro leitor, não me orgulho de ter pensado de tal maneira, mas como eu poderia ficar despreocupada? E se tudo desse errado? Logo percebi que eles não deixariam que nada acontecesse, então, quando finalmente chegamos, eu não pensei mais nesse assunto.
Descemos do carro já na garagem, quase não consegui me equilibrar sobre meu salto, havia passado horas sentada e minhas pernas estavam dormentes. Fomos recebidos pelo pai, que logo nos ofereceu cadeiras e algo para beber.
Depois de trinta minutos sentada na varanda, olhei para porta de vidro e vi uma imagem refletida: uma menina que parecia ter uns vinte anos, um pouco mais baixa que eu, branca como neve, com cabelos loiros encaracolados e lindos olhos verdes. Era Kemily.
Enquanto ela caminhava lentamente em minha direção, lembrei-me do aviso dentro do carro, fiquei imóvel, olhei para minha tia e ela fez um sinal, não era para eu temer.
Assim que estava frente a mim, começou a reparar minha roupa, segurou a ponta da saia rodada de meu vestido, passou as mãos no meu cabelo, totalmente diferente do dela, viu que eu estava maquiada e logo pediu para também ficar.
Minha prima, alguns anos mais nova que eu e muito mimada, fugiu dela. Desviou, não podia vê-la indo em sua direção que ia para outro canto.
Já era tarde quando fomos jantar, mas em compensação a comida estava ótima. E lá vem outro aviso:
- Fiquem atentos para “ninguém” pegar seus copos.
Eu estava sentada longe, não teria como ela alcançar meu copo, mas meu irmão sentou bem na sua frente. Uma olhadinha para o lado e... shuaa! Um copo cheio de Coca Cola gelada derramada na camisa branca do pestinha.
Foi quase uma hora rindo, afinal o atentado tinha tomado um banho inesperado. Finalmente ele tinha ficado quieto.
A mãe dela, enquanto tirava a bagunça da mesa, nos contou que fazia dois dias que ela estava doente e se recusava a comer, mas com a gente lá não houve problemas, pelo contrário, comeu bastante e até começou a roubar o frango que estava na tigela decorada com flores estacionada no centro da mesa.
Com a barriga cheia e muito cansados, nos despedimos, a viagem de volta era longa, não víamos a hora de chegarmos em casa e contar a todos sobre o jantar, o banho de Coca e de como a prima mimada fugia da menina. Muitos abraços, agradecimentos e “volte sempre” , entramos no carro e saímos de lá olhando para trás, pensando em quando teríamos um outro jantar tão especial.

Autora: Maria Luiza Pacheco - Nuporanga/SP

3 comentários

  1. "ÔôôÔ we close our eyes... the perfect life, life ..."
    Sou péssima em inglês, mas amo a música e consegui escutar ela enquanto li tua crônica, isso foi algo que aconteceu de verdade?? Fiquei muito ansiosa! Quase pude ver o brilho nos olhos dela pedindo pra se maquiar!!
    Ficou linda, flor!

    ResponderExcluir
  2. Ao, fafada, escreve muito pá caraiii...

    ResponderExcluir