Um choro alto me chamou a atenção enquanto passava pela rua. Só quando parei assustado para ver de onde vinha o os murmúrios angustiantes reparei que estava parado na frente do cemitério central. Não conhecia ninguém, acabara de chegar naquela pequena e calma cidade.
Entrei sem compromisso no recinto, estava lá apenas de passagem. Ficaria ali só para observar o momento. O lugar é quente como um forno e aumentou, sem intenção, o aroma dos cravos deixados por parentes e amigos do falecido.
No centro estava o caixão com o defunto coberto por um mosquiteiro com enfeites religiosos e com os tais cravos por trás. Ao lado estão algumas pessoas, suponho que sejam um casal de filhos, já adultos, cientes de como lidar com a inimiga inevitável - a morte - e a viúva - que já batalhara tantas vezes com tal.
Eles recebiam os pêsames dos amigos e parentes. A moça aos prantos segura a mão do pai por baixo do mosquiteiro e o rapaz afaga a cabeça da viúva que chorava com berros e soluços por causa da perda.
Sento no fundo do local em uma fileira de bancos vazia, ninguém parece ter me notado. Olho em todos os cantos, em todos lá presentes. É espantoso como as classes aparecem em todos os lugares. Lá havia aqueles que realmente choram por causa da recém perda; aqueles que estão lá só para cumprimentar os filhos e a viúva para depois sentar em um banco e ficar olhando para qualquer canto com um olhar vago; aqueles que conversam e riem alto, sem respeito algum ao momento e aqueles que rezam pela alma do irmão.
Chegara ali o padre, aquele que faria uma pequena reza pela alma para que ela pudesse ir em paz. Enquanto a oração acontecia, alguns da classe conversamos e rimos alto não estamos nem aí com o defunto, continuavam na sua prosa e acabei ouvindo a pergunta:
-De que ele morreu?
E como se fosse um expert da vida do falecido, alguém respondeu com desdém, como se já tivesse respondido isso muitas vezes:
-Morreu de enfarte, não teve tempo nem de chegar ao hospital.
Acabada a reza, juro ter visto uma pomba branca voar de uma árvore próxima de lá, talvez fora um sinal, a alma do pobre homem subira aos céus. Já precisava sair dali. Fui até o caixão ver o corpo daquele que eu falara tanto. O aroma inebriante dos cravos que senti no início estava mais forte ali perto. Começo olhando-o desde os pés cercados de flores. Ele não era muito alto, com algumas saliências, nada que impressionasse.
Quando vi seu rosto é possível que tenha gritado. Fico com nossos rostos frente a frente e é como se houvesse um espelho entre nós. Balanço o corpo imóvel, ignorando aqueles ali perto, como se pudesse ressuscitá-lo. Durante aquela briga injusta o aroma dos cravos já me adoecia.
Então tudo se apagou e senti minha esposa me cutucando e reclamando de meus murmúrios noturnos. Abri o olho, estou no meu quarto, deitado na cama. Na minha frente, em cima do criado-mudo, quase embaixo de meu nariz, há um incenso de cravos que minha esposa colocara ali.
Foi apenas um sonho e agora eu voltarei a dormir. Talvez tenha sido uma premonição, mas não me importo. O que vier enfrentarei de bom grado.
Autor: André Figueiredo - Areado/MG
Entrei sem compromisso no recinto, estava lá apenas de passagem. Ficaria ali só para observar o momento. O lugar é quente como um forno e aumentou, sem intenção, o aroma dos cravos deixados por parentes e amigos do falecido.
No centro estava o caixão com o defunto coberto por um mosquiteiro com enfeites religiosos e com os tais cravos por trás. Ao lado estão algumas pessoas, suponho que sejam um casal de filhos, já adultos, cientes de como lidar com a inimiga inevitável - a morte - e a viúva - que já batalhara tantas vezes com tal.
Eles recebiam os pêsames dos amigos e parentes. A moça aos prantos segura a mão do pai por baixo do mosquiteiro e o rapaz afaga a cabeça da viúva que chorava com berros e soluços por causa da perda.
Sento no fundo do local em uma fileira de bancos vazia, ninguém parece ter me notado. Olho em todos os cantos, em todos lá presentes. É espantoso como as classes aparecem em todos os lugares. Lá havia aqueles que realmente choram por causa da recém perda; aqueles que estão lá só para cumprimentar os filhos e a viúva para depois sentar em um banco e ficar olhando para qualquer canto com um olhar vago; aqueles que conversam e riem alto, sem respeito algum ao momento e aqueles que rezam pela alma do irmão.
Chegara ali o padre, aquele que faria uma pequena reza pela alma para que ela pudesse ir em paz. Enquanto a oração acontecia, alguns da classe conversamos e rimos alto não estamos nem aí com o defunto, continuavam na sua prosa e acabei ouvindo a pergunta:
-De que ele morreu?
E como se fosse um expert da vida do falecido, alguém respondeu com desdém, como se já tivesse respondido isso muitas vezes:
-Morreu de enfarte, não teve tempo nem de chegar ao hospital.
Acabada a reza, juro ter visto uma pomba branca voar de uma árvore próxima de lá, talvez fora um sinal, a alma do pobre homem subira aos céus. Já precisava sair dali. Fui até o caixão ver o corpo daquele que eu falara tanto. O aroma inebriante dos cravos que senti no início estava mais forte ali perto. Começo olhando-o desde os pés cercados de flores. Ele não era muito alto, com algumas saliências, nada que impressionasse.
Quando vi seu rosto é possível que tenha gritado. Fico com nossos rostos frente a frente e é como se houvesse um espelho entre nós. Balanço o corpo imóvel, ignorando aqueles ali perto, como se pudesse ressuscitá-lo. Durante aquela briga injusta o aroma dos cravos já me adoecia.
Então tudo se apagou e senti minha esposa me cutucando e reclamando de meus murmúrios noturnos. Abri o olho, estou no meu quarto, deitado na cama. Na minha frente, em cima do criado-mudo, quase embaixo de meu nariz, há um incenso de cravos que minha esposa colocara ali.
Foi apenas um sonho e agora eu voltarei a dormir. Talvez tenha sido uma premonição, mas não me importo. O que vier enfrentarei de bom grado.
Autor: André Figueiredo - Areado/MG
André do céu! Isso era um sonho ou um pesadelo??
ResponderExcluirMeio angustiante pensar em se ver próprio ali morto!
Gostei da narrativa *-*
Profunda e... distopica?! rsrsrs
Obrigado Dany *-*
ExcluirO q ser distopica? Mim ser índio burro
ExcluirDistopia, sei lá. Não sei explicar muito bem. Mas é tipo Jogos Vorazes, uma história onde as coisas só dão errado. Como eu disse, não sei explicar, mas é isso que entendo.
Excluirrsrsrs Queisso?? Meu amigo sou nova nessa área, mas, distopia é uma historia em que as personagens sofrem durante todo o percurso escrito e imaginado... Cleiton deve ler esses livros sem nem ter conhecimento disso kkkkk tipo eu!
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