Era uma vez que acordei mal-humorado. Antes de abrir os olhos, fiquei por uns momentos ouvindo o meu despertador, e é realmente incrível como uma pessoa pode odiar qualquer som só porque ele a fez acordar. Eu, por exemplo, vivo em medo constante de odiar pianos e passarinhos apenas porque é esse o som que me chama todas as manhãs. Ao contrário do que dizem os otimistas, o canto dos espécimes passeriformes é um ruído extremamente irritante, comparável ao grito de um violino desafinado, quando é a primeira coisa que se ouve pela manhã. Quanto ao piano, não faço comparação, simplesmente por não conseguir explicar a ira que as teclas de marfim me causam toda aurora. Felizmente, esse meu ódio é direcionado apenas à certa junção de melodias destes dois fazedores de barulho que me desperta seis dos sete dias da semana.
Silenciei aquele terrível punhado de sons e me levantei. Chovia, e fazia sol. Fiquei mais feliz: quem sabe a aula de educação física não seria cancelada? (Digo em avanço, não foi). Toda e qualquer pessoa que viva em um país tropical, em que os fenômenos meteorológicos não se apresentam tão bem definidos como nas áreas temperadas, sabe muito bem o que acontece quando um raio de sol esbarra numa gotícula d’água suspensa no ar: esse raio, uno e branco, é dividido pela água nas sete cores do espectro visível. Aos que não apreciam a linguagem rebuscada, explicito que se trata dum arco-íris. Esta ímpar demonstração natural do funcionamento de prismas, que geralmente deixa o coração feliz, sempre teve em mim um efeito estranho, o mesmo que têm as obras de arte. Eu olho para elas, ao mesmo tempo com reverência e inveja; quem me dera poder fazer algo tão belo! Bem, não sou Klimt, nem sou as leis da óptica, e, sabendo que provavelmente nunca pintarei um retrado de Adele Bloch-Bauer e que muito menos dividirei a luz ao toque, fiquei melancólico. Perdão, retifico-me, fiquei nostálgico. Não são a mesma coisa, e quem já sentiu ambos sabe bem do que falo.
O que mais aconteceu no meu dia, pouco importa. É importante apenas salientar que a sensação de falta, de saudade, me acompanhou com o sol. Se eu pudesse apenas ter ficado a manhã toda sentado, observando o arco-íris, seria tão bom! Os fenômenos naturais têm um belo jeito de nos fazer sentir pequeneza, uma certa inferioridade. Mas não entenda mal o que digo. Veja, ser inferior à natureza é completamente diferente de ser inferior a outro ser. A natureza não nos demanda nada, apenas nos mostra o que conhece. Nos ensina, não nos pede. Quem nunca sentiu um arrepio ao ouvir um trovão ou se sentiu deselegante quando via uma folha ir com tanta fluidez ao chão? Queria tanto ter ficado me sentindo pequeno em comparação ao arco-íris, em vez de ter que sair de casa e me sentir pequeno e só pequeno, sem me comparar a nada. Mas a verdade é que me senti, naquele dia todo, como se tivesse perdido cinco centímetros. Como se estivesse curvado. Sentia falta de algo. Finalmente cheguei à minha casa. Sentei na rede, fechei os olhos. Comecei a cantarolar La vie en rose e, de repente, senti vontade de ter mais inveja. Coloquei a tocar As quatro estações. Então descobri porque me sentia tão pequeno. Descobri do que sentia falta. Apreciei a música e o alívio de saber o porquê da sensação estranha. Sabia bem o que queria, naquele momento: escrever.
Autor: Víctor Chagas - Recife/PE
Inveja, ou, O Combustível da Arte
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
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Sensação indefinida essa de quando NECESSITAMOS escrever!
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