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Quando o mundo muda...

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

           Engraçado... No fundo no fundo ela não queria mesmo mudar.
          -Quem em sã consciência muda de colégio em pleno terceiro ano? – com certa razão ela tinha dito. Mas, só uma louca seria capaz de desperdiçar uma oportunidade dessas, o que não era o caso dela. Afinal, eu estava aqui!
        Não demorou muito para que ela percebesse no quê havia nos metido. Mais que uma nova escola, aquilo certamente era um novo mundo – ela começava a acreditar que possivelmente de uma galáxia muito, muito distante! – só isso explicava o fato dela sequer entender a língua que eles falavam... Céus! Aquilo era grego ou eles realmente estudavam uma entidade chamada Kekulé?
          Confesso que muitas vezes não fui de grande ajuda... Aconselhei que ela não fizesse amigos e que se concentrasse apenas nos estudos, mesmo sendo ela a boa aluna que era e um ser completamente impossível de não soltar um “Oi” com “florzinha” a cada um que passasse. Fui eu também a responsável pelo grito desesperado por silêncio naquela aula de matemática, que, só de lembrar a fez chorar a noite toda.
          Desde quando ela precisava de silêncio ou gritava com alguém que mal conhecia??? Ao que parece, desde a nota baixa no último boletim. Foi então que eu percebi que estava perdendo-a aos pouquinhos. Há tempos que ela não via seus amigos, ia à igreja ou lia uma revistinha da Mônica... Qual tinha sido a última vez que ela escrevera uma crônica ou gargalhara por nada? Droga, ela só chorava, chorava e chorava. O que eu tinha feito? Em quase 16 anos eu só a tinha visto “vazar” em dia de vacina! Eu tinha quebrado ela...
        Foi aí que eu pedi ajuda. E quando admiti que não podia mais suportar – pelo menos não sozinha, eu a enxerguei em cada um daquela turma. Eu consegui ver nas olheiras deles que ela não era a única perdendo o sono em véspera de prova e, sorri ao reconhecer naqueles grandes a humildade e o medo dos pequenos que foram um dia. Ali na minha frente estavam os responsáveis pelo looping de 180° que a vida dela tinha dado nos últimos meses e, de repente, eles não pareciam mais ETs. Eles transmitiram a força que só quem é nascido pra vencer possui.
           Eu a vi renascer quando finalmente um raio de sol surgiu em sua jornada. E mesmo com toda a sua armadura, ela fez amigos e não a repreendi. E no meio de estrelas, mesmo que perdida em uma teoria de pontos, eu deixei que ela tomasse suas próprias decisões. E ela as fez, sem nenhum arrependimento. Conheceu sábios que brincavam em aula, que encenavam inventando terras paralelas para que pensássemos a fundo de um contrato social ou de uma fagocitose; mestres contadores de histórias ou apreciadores de coxinha. Passou de ano com boas notas... E, não só sobreviveu à mudança do seu mundo e ao Enem - conheceu os postulados sobre o carbono ou leu sobre os desventurados Baudelaires – mas também cresceu. Eu sei bem disso porque eu sou a consciência dela. Não somos mais aquela menininha.
          Estamos novamente assistindo o mundo que conhecemos dar mais um looping, talvez de 360° e sem avisos. Engraçado... Agora não estou com medo de mudar.
 Danielly Lopes - Araguaína/TO


Larva de sonho

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

          Estamos aqui mais uma vez. Você e eu, elas e aqueles... Nós estamos aqui, mais uma vez. Talvez digamos que de passagem não somos os mesmos, ou que talvez os mesmos sejam. É possível que acreditemos no final apenas como outro inicio, como também é louvável assumirmos que não queremos recomeçar. Não do zero.
          Não me entenda mal, uma quantidade de tempo proporcionalmente livre, e recheado de tudo o que quisermos fazer é indiscutivelmente um sonho. Sonho que ao passar dos dias vai ficando cada vez menor, chega a ser portátil para carregarmos no bolso, e é aí que antes dele sumir, instantaneamente cresce e gigante novamente seu único receio é a contagem regressiva 10, 09, 08, 07, 06, 05, 04, 03, 02... Você sabe.
          Então porque deixamos nosso sonho tão pequeno, já que alimentamos tanto ele a cada explosão de fogos de artifício? É inato que metamorfose não nos pareça uma boa ideia, e já que não mudamos, o sonho não se desenvolve e não passa de larva. Nós teimamos em ser maior que nossas esperanças e não o contrário. O poder de superioridade nos desperta, mas não nos guia, e às vezes alerta percebemos que não é tarde demais. Mas aí vêm as poucas taças de champanhe da noite passada e cá estamos de novo.
          Estamos aqui mais uma vez. Você e eu, elas e aqueles... Nós estamos aqui, pela ultima vez esse ano. Com o sonho a ponto de diminuir, por pura comodidade, medo, insegurança até. Que faremos com o que somos? Não nos preocupemos, o Sonho vem aí, o mesmo desde o inicio dos nossos tempos... Basta termos a força de transformá-lo em tudo o que quisermos. Borboletas serão apenas o início.
Danielly Lopes - Araguaína / TO

Um aparelho ortodôntico para um sorriso amarelo

     Enquanto o céu cinza anunciava o “toró” que iria cair sobre o setor Maracanã, descia eu, a avenida com minha Tia Bilu - companheira de sempre – a tiracolo.
     - O tempo dos jambos ta acabando, e esse ano ainda não comi nenhum, por conta do meu aparelho! ... - Comento distraidamente, recordando-me das inúmeras oportunidades que tive nesse Dezembro de me deliciar com a pequena frutinha vermelha, mas que por medo de quebrar meu “concerta sorriso”, nem me atrevi. Sentia-me um peixe com um anzol na boca.
     - Ali no fim da avenida tem um pé menina, olha! – Tia Bilu avisou, apontando ao longe a árvore de formato inconfundível.
     Num piscar de olhos da minha tia e lá estava eu embaixo do pé a procura de um mísero resquício de uma temporada farta. O vermelho de um único fruto piscou, tal como luz de Natal naquele mundaréu verde das folhas. Agora não teria aparelho nenhum que me segurasse! Minha dentista teria de me perdoar, por que lá estava aquele solitário jambo me chamando, me hipnotizando... Quase que me pedindo para salvá-lo do escuro da copa da arvore!
     Eu tinha que ser rápida! Além de a chuva anunciar cada vez mais zangada sua chegada, a casa em frente estava com as janelas abertas, e eu já tinha percebido uma senhora lá dentro, varrendo a sala. Era como se a casa com seus olhos bem abertos fosse ora cúmplice, ora testemunha do promotor. Se a dona da casa me pegasse ali, roubando jambo da sua casa... Seria um flagrante inegável!
     Mas que falta de sorte, o danado do jambo estava fora do alcance das minhas mãos. Parecia que meu aparelho ortodôntico iria ganhar novamente. E agora quem poderia me defender? Tia Bilu, ainda caminhando ao meu encontro, era dona de uma estatura menor que a minha... Foi aí caro leitor, que tive a certeza de que tamanho é identidade sim, senhor!
     Já me comparando a Dona Raposa, de “A Raposa e as uvas”, e estando a ponto de desistir, reconheci por entre as folhas, descendo no ponto de ônibus da esquina munida de sacolas de compras, uma amiga, e que para a minha alegria vinha se aproximando rapidamente com receio da chuva.
     - Juliette! – gritei – Minha flor, tu é mais alta que eu, me ajuda a roubar esse jambo! Antes que a dona da casa veja! – completei num sussurro.
     - E ainda tem jambo aqui?! Eu não sabia... – Disse já arrancando com facilidade meu tão desejado deleite azedo.
     - Ô Juliette, pensei que a dona da casa ia me flagrar aqui roubando jambo! Obriga...
     Não consegui completar o meu agradecimento, Tia Bilu chegou onde estávamos, e ao passo que eu já ia lhe deixar a par do sucesso da operação, ela virou-se para Juliette e perguntou:
     - Ué Juliette, tu não sabia que ainda tinha jambo aqui no pé em frente a tua casa?!
     E foi aí então que um sorriso amarelo tomou conta da minha “boca de ferro” molhada pela chuva, que com o acontecido tinha finalmente chegado.
Danielly Lopes - Araguaína / TO

Maldito acidente

terça-feira, 25 de agosto de 2015



          “Tua mulher tá te traindo” com os dedos ágeis eu tinha escrito. Uma mexidinha na configuração do SMS e pronto! Anônimo, claro. Eu estava segura a ponto de mostrar ao meu pai quem era de verdade essa piriguete que ele colocou em nossa casa.
          -Você precisa de alguém pra substituir sua mamãe, já faz um ano querida... – Ele tinha dito.
          -Eu preciso?! Ah!- Eu era o sarcasmo em pessoa - Não importa se já passou um ano que ela se foi naquele maldito acidente! Ninguém vai substituir a minha mãe... Nunca! – disse. Mas foi o mesmo que não ter dito. Duas semanas depois e a lambisgoia tinha se apossado da vida da minha mãe... Da minha vida.
          Naquele tarde ele iria saber. Ele tinha que acreditar por que eu não suportava mais ficar assistindo aquela bruxa trocar meu pai pelo amante. Ou como ela costumava dizer, o “primo distante do Sul”. Aquilo tudo estava me deixando insegura, frágil e gradativamente louca. E sem pensar em nada, decidi apenas não mais passar por isso outra vez.
         Era só tocar ENVIAR na tela e... resolvi então não enviar o SMS, eu não tinha nada que me meter, não é mesmo?! Pronto foi isso, apenas deixei pra lá.
          Mas o celular deu xabu, travou e não quis voltar nem com reza!  Tentei reiniciar. Reiniciei, mas não foi como eu imaginei, deu problema. A porcaria da mensagem já havia sido enviada. E o pior não foi pro numero do meu pai, mas pro Sr. Mário Amorim meu vizinho. Foi um acidente assim como a morte da minha mãe, só que esse eu poderia consertar, se não estivesse mega atrasada pra escola.
          -Mas que pitombinha – lembro de ter dito pela primeira vez de muitas, naquele dia.
          Pensei que contar o mal entendido pro seu Mário depois da escola não seria problema. Afinal os meus vizinhos eram apaixonados. E segundo Dona Nena, esposa de seu Mário, eles estavam pra comemorar 25 anos de casados com um baita festão que teria até uma cascata de chocolate iguais as da novela das 11. O amor deles ao contrário do que os meus pais sentiam, não ia morrer. Acidentalmente não foi isso que aconteceu com meus pais, pois acidentes acontecem e eu precisaria aceitar que algumas vezes o amor morre, mata e outras ainda, vive eternamente... Amor como o que eu ainda sinto pela minha mãe.
Autora: Danielly Lopes - Araguaína / TO

“Paiaço”

domingo, 9 de agosto de 2015

          Meu pai já foi modelo e DJ quando jovem, mas hoje não se contenta só com a serralheria, sonha em realizar novos empreendimentos todos os dias. Meu pai antes de mim planejava ter cinco filhas, mas quem o conhece sabe que ele parou na primeira que teve. Foi meu pai quem me comprou um radinho vermelho que quando bebê me fazia balançar animada ao som que fazia. Meu pai queria que eu me chamasse Micaela, talvez por isso ate pouco tempo escrevia meu nome com um “A” no final.
         Meu pai me ensinou toda a tabuada de multiplicação. E aos oito quando discuti com minha professora, ele quem foi chamado pela coordenação. E com a promessa de uma pisa bem dada foi a primeira e ultima vez que a escola o viu. Meu pai nunca me bateu, e eu não sou uma pessoa ruim por isso.
         Meu pai sabe desenhar, mas morre de preguiça disso. Meu pai sempre dividiu meus lanches comigo. Ele sempre é o primeiro e o ultimo a comer de um pote de doce. Ele é apaixonado por Nesquik e sempre diz que quem quiser matá-lo é só por veneno numa lasanha quentinha pra vê-lo estirado chão. Aliás, lasanha é seu prato favorito.
         Foi ele quem há pouco tempo voltou a estudar e hoje mudou sua escolaridade para “Ensino médio completo”. Meu pai é muito inteligente, mas é péssimo em ortografia. Meu pai é muito curioso, e talvez por isso seja sempre ele quem concerta tudo de tudo aqui em casa – Depois de mamãe muito pedir.
         Meu pai sempre me faz rir, não importa qual a situação; Creio que tenha sido ele a estragar minha “tranca de gargalhada” quando eu ainda era uma menininha. Meu pai sempre começa uma briga de almofadas na sala quando a novela fica chata. Sempre ganhei do meu pai no videogame, e ele sempre pede revanche, em compensação ele sempre vence a revanche. Meu pai solta pipa, dança flashback e gosta dos heróis da Marvel, inclusive o Hulk. Os filmes de ação só têm graça se ele estiver comigo pra me explicar cada explosão. Papai nunca teve muito jeito com crianças, mas elas o adoram e talvez por isso eu tenha perdido a conta de quantos afilhados, mamãe e ele possuem.
         Meu pai é um bom marido. Chama mamãe de “Bem” e eu me lembro de quando ele mandava msg pro celular de mamãe assinando como um admirador secreto. Ele e mamãe são o casal mais lindo que já conheci. E acredito que quando me apaixonar por alguém, esse alguém será como ele, criativo, honesto e sempre me fará rir. Enquanto isso, sigo apaixonada só por ele mesmo.
         Meu pai é minha imagem e semelhança, serio mesmo. Tem cara de bravo, mas é só abrir um sorriso que todo o resto se esvai. Odeia mentira, e consequentemente falsidade.  Às vezes seus olhos estão como o mel mais puro, mas a cor do mesmo muda conforme o humor.
          Meu pai é nada mais que menino danado. É grande contador de historias e em cada uma se comprova o quão desinquieto era quando criança. Bebe socialmente e quando chega o fim de semana abandona as botas de bico de ferro e as troca por um boné da moda e um par de sandálias. Meu pai é dono de um bom gosto indiscutível.
          Meu pai me ensinou a andar de bicicleta e hoje me ensina a dirigir seu carro. Meu pai sempre me acorda perguntando se vou pra escola, e eu sempre penso duas vezes antes de confirmar. Meu pai gosta de chocolate branco enquanto eu ainda prefiro chocolate ao leite. Meu pai me magoou quando não compareceu a minha Crisma, mas já o perdoei. Meu pai a cada cachorro que criávamos e vinha a falecer, ele dizia que não criaria mais nenhum, a prova que contradiz tudo isso é o Tufão, que brinca ali no quintal. 
          Ele quem chegava em casa com duas ou três revistas em quadrinho pra me presentear, e hoje tem que suportar e custear essa minha fome insaciável por livros e historias novas. Meu pai leu um livro uma vez, mas não passou do prólogo; cochilou e nunca mais o pobrezinho foi aberto. Ele quem me acompanhou na “saga da OLP”, inclusive foi ele quem viajou de avião junto comigo por conta disso...
         Meu pai é o melhor pai do mundo, não por ser perfeito, nem mesmo por ser um super herói. Ele é o melhor porque ele é pai, amigo, irmão e meu filho tudo ao mesmo tempo e na hora certa. Mamãe costuma dizer que ele é “pai-paiaço” por sempre me apoiar em tudo. Mas talvez seja isso mesmo. Quem sabe ele seja mesmo um super herói, um homem de aço... O meu Pai-aço. Ele é tudo isso e um pouco mais.
Autora: Danielly Lopes - Araguaina / TO