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Um aparelho ortodôntico para um sorriso amarelo

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

     Enquanto o céu cinza anunciava o “toró” que iria cair sobre o setor Maracanã, descia eu, a avenida com minha Tia Bilu - companheira de sempre – a tiracolo.
     - O tempo dos jambos ta acabando, e esse ano ainda não comi nenhum, por conta do meu aparelho! ... - Comento distraidamente, recordando-me das inúmeras oportunidades que tive nesse Dezembro de me deliciar com a pequena frutinha vermelha, mas que por medo de quebrar meu “concerta sorriso”, nem me atrevi. Sentia-me um peixe com um anzol na boca.
     - Ali no fim da avenida tem um pé menina, olha! – Tia Bilu avisou, apontando ao longe a árvore de formato inconfundível.
     Num piscar de olhos da minha tia e lá estava eu embaixo do pé a procura de um mísero resquício de uma temporada farta. O vermelho de um único fruto piscou, tal como luz de Natal naquele mundaréu verde das folhas. Agora não teria aparelho nenhum que me segurasse! Minha dentista teria de me perdoar, por que lá estava aquele solitário jambo me chamando, me hipnotizando... Quase que me pedindo para salvá-lo do escuro da copa da arvore!
     Eu tinha que ser rápida! Além de a chuva anunciar cada vez mais zangada sua chegada, a casa em frente estava com as janelas abertas, e eu já tinha percebido uma senhora lá dentro, varrendo a sala. Era como se a casa com seus olhos bem abertos fosse ora cúmplice, ora testemunha do promotor. Se a dona da casa me pegasse ali, roubando jambo da sua casa... Seria um flagrante inegável!
     Mas que falta de sorte, o danado do jambo estava fora do alcance das minhas mãos. Parecia que meu aparelho ortodôntico iria ganhar novamente. E agora quem poderia me defender? Tia Bilu, ainda caminhando ao meu encontro, era dona de uma estatura menor que a minha... Foi aí caro leitor, que tive a certeza de que tamanho é identidade sim, senhor!
     Já me comparando a Dona Raposa, de “A Raposa e as uvas”, e estando a ponto de desistir, reconheci por entre as folhas, descendo no ponto de ônibus da esquina munida de sacolas de compras, uma amiga, e que para a minha alegria vinha se aproximando rapidamente com receio da chuva.
     - Juliette! – gritei – Minha flor, tu é mais alta que eu, me ajuda a roubar esse jambo! Antes que a dona da casa veja! – completei num sussurro.
     - E ainda tem jambo aqui?! Eu não sabia... – Disse já arrancando com facilidade meu tão desejado deleite azedo.
     - Ô Juliette, pensei que a dona da casa ia me flagrar aqui roubando jambo! Obriga...
     Não consegui completar o meu agradecimento, Tia Bilu chegou onde estávamos, e ao passo que eu já ia lhe deixar a par do sucesso da operação, ela virou-se para Juliette e perguntou:
     - Ué Juliette, tu não sabia que ainda tinha jambo aqui no pé em frente a tua casa?!
     E foi aí então que um sorriso amarelo tomou conta da minha “boca de ferro” molhada pela chuva, que com o acontecido tinha finalmente chegado.
Danielly Lopes - Araguaína / TO

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