- O tempo dos jambos ta acabando, e esse ano ainda não comi
nenhum, por conta do meu aparelho! ... - Comento distraidamente, recordando-me
das inúmeras oportunidades que tive nesse Dezembro de me deliciar com a pequena
frutinha vermelha, mas que por medo de quebrar meu “concerta sorriso”, nem me
atrevi. Sentia-me um peixe com um anzol na boca.
- Ali no fim da avenida tem um pé menina, olha! – Tia Bilu
avisou, apontando ao longe a árvore de formato inconfundível.
Num piscar de olhos da minha tia e lá estava eu embaixo do
pé a procura de um mísero resquício de
uma temporada farta. O vermelho de um único fruto piscou, tal como luz de
Natal naquele mundaréu verde das folhas. Agora não teria aparelho nenhum que me
segurasse! Minha dentista teria de me perdoar, por que lá estava aquele
solitário jambo me chamando, me hipnotizando... Quase que me pedindo para salvá-lo
do escuro da copa da arvore!
Eu tinha que ser rápida! Além de a chuva anunciar cada vez
mais zangada sua chegada, a casa em frente estava com as janelas abertas, e eu
já tinha percebido uma senhora lá dentro, varrendo a sala. Era como se a casa
com seus olhos bem abertos fosse ora cúmplice, ora testemunha do promotor. Se a
dona da casa me pegasse ali, roubando jambo da sua casa... Seria um flagrante
inegável!
Mas que falta de sorte, o danado do jambo estava fora do
alcance das minhas mãos. Parecia que meu aparelho ortodôntico iria ganhar
novamente. E agora quem poderia me defender? Tia Bilu, ainda caminhando ao meu
encontro, era dona de uma estatura menor que a minha... Foi aí caro leitor, que
tive a certeza de que tamanho é identidade sim, senhor!
Já me comparando a Dona Raposa, de “A Raposa e as uvas”, e
estando a ponto de desistir, reconheci por entre as folhas, descendo no ponto
de ônibus da esquina munida de sacolas de compras, uma amiga, e que para a
minha alegria vinha se aproximando rapidamente com receio da chuva.
- Juliette! – gritei – Minha flor, tu é mais alta que eu, me
ajuda a roubar esse jambo! Antes que a dona da casa veja! – completei num
sussurro.
- E ainda tem jambo aqui?! Eu não sabia... – Disse já
arrancando com facilidade meu tão desejado deleite azedo.
- Ô Juliette, pensei que a dona da casa ia me flagrar aqui
roubando jambo! Obriga...
Não consegui completar o meu agradecimento, Tia Bilu chegou onde
estávamos, e ao passo que eu já ia lhe deixar a par do sucesso da operação, ela
virou-se para Juliette e perguntou:
- Ué Juliette, tu não sabia que ainda tinha jambo aqui no pé
em frente a tua casa?!
E foi aí então que um sorriso amarelo tomou conta da minha
“boca de ferro” molhada pela chuva, que com o acontecido tinha finalmente
chegado.
Danielly Lopes - Araguaína / TO
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