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Ô sofrência

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Nunca compreendi o gosto musical do brasileiro. Certa vez no elevador da minha residência, eu seguia sozinha para ver aos fogos de Ano Novo no terraço e comecei a ouvir uma daquelas musiquinhas que o nosso síndico insiste em mandar tocar nos elevadores para deixar a viagem dos moradores menos longa - já que o nosso pequeno arranha-céu é de 15 andares.
De repente a tal musiquinha para, e meus ouvidos, que já estavam dando graças a tudo quanto era divindade, foi fortemente atacado pela modinha do momento: Pablo
Depois de passar alguns minutos que pareceram uma eternidade ouvindo a música, a fé que eu ainda tinha na música brasileira acabara. Comecei, então, a me questionar: De onde surgira inspiração para uma música daquelas? E quem foi que disse que a música era de "corno"? Eu não vi indícios na letra de que ele foi traído. Ou foi? Pobre, Pablo...
Ouço um forte barulho e o elevador para. A luz se vai e o Pablo fica. Alguns minutos, que foram de eternidade para tortura, ouvindo o tal hit, o interfone do elevador toca e eu rapidamente identifico a voz do síndico do outro lado da linha.
- Senhores moradores. Tivemos uma falha técnica no sistema dos elevadores do nosso prédio. Os bombeiros já foram acionados e peço a colaboração de vocês. Por sorte, a música ainda está funcionando para tornar a espera menos longa.
Passei cerca de duas horas ouvindo Pablo. Ô sofrência!

Autora: Andria Moraes - Manaus/AM

Audição Aguçada

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Senti o calor irradiar pelas persianas queimando minha pele. A manhã chegara e era melhor me levantar logo. Tateei pelos cantos da parede em direção do banheiro. Deslizara as pontas dos dedos por aqueles tijolos tantas vezes que já tinha decorado cada ranhura no azulejo.  Naturalmente, não tinha espelho no banheiro; cegos não se olhavam no espelho. Escovei os dentes, tomei banho e penteei os cabelos. Supunha que minha aparência estava ok. Minha mãe diz que sou lindo, mas não sei se posso acreditar no que uma mãe carinhosa e preocupada tem a dizer.
De café tomado, com a aparência tão luxuosa quanto um cego pode conseguir; decidi ir ao parque. Depois que me formei no ensino médio as coisas tornaram-se bastante entediantes. Já começava a sentir falta das piadinhas – mentira.
Andar pela cidade é mais fácil do que você imagina. Não preciso me preocupar em me esbarrar com alguém, assim que as pessoas me veem com a bengala, desviam-se automaticamente de mim. Morava em uma cidade pequena, então desde criancinha atribuí-me a tarefa de contar os passos de um lugar a outro. Da minha casa até a padaria – cinquenta e três passos. Da minha casa até o supermercado – duzentos e seis passos etc. Nem sempre era necessário contar infinitamente os passos, ás vezes pedia a alguma pessoa para me guiar até certo lugar ou então, simplesmente decorava as ruas; sabia exatamente onde estava por mero instinto.
Chegando ao parque, um lugar cheio de crianças e brinquedos, areia, grama e sol saudável – quando o tempo resolvia cooperar -, sentei-me no banco mais próximo. Ouvi um resmungo abafado, já tinha gente sentada no banco e estavam se amontoando umas nas outras, abrindo espaço para eu poder me sentar. Privilégios de um deficiente visual, diria Hazel Grace de A Culpa é das Estrelas. Sentei-me cauteloso, para não esbarrar nas pessoas, acomodando-me pacificamente. De súbito, ouvi uma vozinha se dirigindo a mim.
- Porque seus olhos são tão brancos? - Era um timbre de criança. Estava sentada no banco. Ah não, esqueci meus óculos, pensei, soltando um gemido de arrependimento.
- Clarinha! – Repreendeu alguém, que supus ser a mãe.
- Você quer saber mesmo? De verdade? – Disse calmamente, fitando o nada a minha frente com uma expressão solene.
- Quero!
- Fadas! – Fiz uma pausa dramática, depois continuei. - Elas levaram minha visão e em troca me deram ouvidos muito aguçados. É uma audição especial. Consigo entender a língua dos animais, e sei exatamente o que as águas e os ventos falam.
- Água e vento sabem falar? – Disse ela, em tom de dúvida, sem saber se acreditava ou não. A mãe estava silenciosa.
- Mas é claro! As águas não gostam quando, por exemplo, você joga saco de lixo nelas. Se sentem insultadas.
- Meu pai diz a mesma coisa...
- Um homem sábio.
- Clarinha, querida, não fique incomodando o rapaz dessa forma. – Ela se levantou e pegou suas sacolas. – Diga tchau para ele.
- Tchau, homem-mágico!
- Adeus, Clarinha.
                Fiquei mais alguns minutos no banco, me levantei e fui embora. Estava satisfeito com o que acontecera hoje. Se todas as pessoas no mundo tivessem a inocência de uma criança, se sentindo satisfeitas com uma simples explicação, sem preconceitos e receios, o mundo seria um lugar melhor para se conviver.

Autor: Helder Pedrosa - Lagoa da Prata/MG

Estranha Solidão

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O frio dessa Véspera de Natal me deixa inquieto. Mal consigo respirar, resultado de uma infecção pulmonar causada pelo cigarro. Sim, eu fui escravo da nicotina durante 30 anos dolorosos. Mas isso não vem ao caso.
Sinto saudade do ronco barulhento da minha velha. Mais um natal infeliz sem ela. Vivendo uma vida pacata. Sendo acolhido pela solidão, bem, nem ela me acolheu.
Ouço barulhos vindo da sala de estar. O que será? Quem será? O que estão fazendo? Essas perguntas duraram alguns segundos para serem respondidas.
Me deparo com dois bichanos brincando com a árvore de natal. Um puxa bravamente uma das bolas com a boca, com muita voracidade, como se aquela bola fosse seu inimigo íntimo, porém, não consegue com êxito, já que a bola é maio que a sua boca. O outro corre sem parar em volta da árvore, os seus olhos brilham de tanta sagacidade.
Diante disso, surge mais algumas perguntas: Como vieram parar aqui? De quem são? Porque estão aqui?
Essas perguntas são incapazes de serem respondidas. Por qual motivo? Eu não sei respondê-las, ou melhor, ninguém sabe...
Me sento no sofá. Aprecio detalhadamente a traquinagem dos gatinhos. Eles notam a minha presença. Param. Me esquecem, e finalmente voltam a brincar.
Deito-me no sofá, me sinto gratificado em presenciar tal fato. Eles correm rapidamente em minha direção, e pulam em cima do sofá. Me assusto, porém logo me acostumo com os pequenos invasores. Eles deitam-se em meus braços, e num piscar de olhos dormem.
Agora, eu não estou só, eles estão comigo. Um alívio me invade a alma. Finalmente consigo dormir.

Autor: Felipe Augusto - Campina Grande/PB

Segunda-feira Imunda

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Segunda-feira chegou novamente; eu não gosto muito dela, pois é o dia que acaba a diversão do fim de semana, todos acordam com cara fechada, a mãe brigando com o filho logo cedo: — Vai pra escola, guri!!
— Já vou, mãe... — Diz ele ainda sonolento.
Cada passo que ele dá é com tanta lerdeza e dificuldade que dá dó só de ver. Ele toma um banho, veste seu uniforme, e vai pra cozinha tomar o café da manhã, sua mãe já havia saído para trabalhar e ele ainda ali, comendo feito uma lesma. Sua calça jeans, sua camiseta branca com o brasão da escola estavam brilhando de limpos, mas não por muito tempo, como eu disse, ESTAVAM brilhando de limpos, agora nem se reconhece suas vestes...
— Ai meu Deus! Como isso aconteceu?! — Diz ele desesperado...
Ele não se lembra como se sujou? Como isso é possível? Desde minha meninice, sempre soube como sujava minha roupa: terra, lama, barro, café, chocolate, leite, sorvete, suco, refrigerante e claro, minhas próprias mãos...
— Preciso resolver isso "urgentementemente"!!
"Urgentementemente"? Quem fala assim? Quantos anos esse garoto tem? Dez anos de idade? Muito improvável, acho que deve ser menos, uns oito anos.
— Ok. Vou tentar limpar isso. — Ele corre pro banheiro, troca de roupa e leva a suja pra lavar. Coloca rapidamente os panos na máquina de lavar roupa e recitando uma crônica faz seu serviço. — "Já fui morena, mulata, vermelha e agora estou negra..."
Hum... Eu conheço essa parte dessa crônica e sei também todo o resto, mas voltando à esse garoto. Ele pega a roupa, coloca na centrífuga e coloca no varal, termina de tomar o café da manhã e já com a roupa seca, ele a veste novamente, pega sua mochila e corre pra fora, tranca a porta e sai ligeiro para a escola. Beleza, agora vamos ver como esse garoto se sujou...
"Ele estava sentado na cadeira tomando o café, comendo um pedaço de bolo e o copo de leite no cantinho da mesa, terminando o bolo, ele parte para o pão e coloca um pouco de achocolatado em pó no leite, mexe, mexe e remexe e se empolga tanto e começa a dançar, bate na mesa que derruba o refrigerante no chão. Voltando em si, ele se assenta novamente e recomeça a comer. A queda fez  a garrafa de refrigerante espirrar líquido em toda a parte, inclusive nele, que assustado derruba leite achocolatado e café para completar a imundície, essa é a hora que ele disse 'Ai meu Deus! Como isso aconteceu?!'"

Autor: Reinaldo Melo - Campo Grande/MS

Uma Dúvida Congelada

domingo, 14 de dezembro de 2014

Ao passar pelo centro, essa movimentação urbana me assusta. Todos podem ser meus filhos. Qualquer um desses milhares de jovens.
Pode ser aquele menino de óculos fundo de garrafa, que anda apressado carregando sua mochila.
Ou aquela menina loira, que vem suja da areia branca da praia.
Talvez o casal de crianças adotadas do Tomé, o risonho pipoqueiro.
A dúvida é minha companheira inseparável.
Mas meu filho pode estar afogado. Afogado nesse frio nitrogênio líquido, congelado, aguardando o calor uterino, que nunca chegou.
Culpa do Velho Desgraçado, destruiu meus mais lindos sonhos maternos... Quebrou a vidraça cristalina que os protegiam.
Meu filho está congelado, ou é um dos passantes desse centro? A minha eterna dúvida. Minha sina.
Esse filho é um humano sem rosto. Um desejo. Contornos dissolvidos. Expressões vazias. Um grande e terrível ponto de interrogação.

Autor: Cleiton Andrade - Rio Pardo/RS

Menino danado

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Animado, ele vem e vai durante o dia todo. Se ele se cansa? Nunca! Não escolhe dia e nem hora, está sempre fazendo seu trabalho.
Acorda bem cedo, ou talvez nem durma. Bate toda manha à minha janela, me chamando para me levantar. Na maioria das vezes tento ignorá-lo, mas ele sempre acaba me pondo de pé.
Lá fora, brinca com as folhas que caem das árvores, jogando-as para lá e para cá como um gatinho brincando com um novelo de lã.
Às vezes, vem em brisa leve e fica horas e horas acariciando minha pele; as vezes, vem em ventania e quase leva árvores e telhados junto com ele.
Não é nada festeiro, muito pelo contrario: odeia festas e faz questão de arruiná-las. Espalha os balões pelo salão, arranca as toalhas das mesas, faz cair o enfeite da parede e até apaga as velinhas no lugar do aniversariante.
Mas não é apenas a festa que nosso camarada não quer que seja bonita, os convidados não poderiam ficar de fora dessa travessura. Levanta a saia, abre o paletó, amarrota a camisa e bagunça os cabelos, acabando em poucos segundos com o que demorou horas para ser arrumado.
Na escola também marca presença, entra pelas grandes janelas, desviando toda a atenção. Muda o livro de pagina, sem se importar com a leitura do aluno. Ajuda aqueles que não estudaram para a prova, fazendo as respostas da aluna mais inteligente da sala cair no chão, todas viradas para cima.
E que pena da professora! Manda para longe as avaliações e trabalhos que ela arrumou com tanto zelo. Se ele não se culpa? Claro que não, para no fundo da sala, observando com louvor os alunos tentando, sem sucesso, segurar as risadinhas que dão ao ver o desespero da coitada.
De quem estou falando? Ora, não poderia ser de outro se não do vento.
Esse forasteiro que veio de longe e se enraizou por aqui; jovem apaixonado que não pode ver lindos cabelos que já se encanta. Um menino danado, que esta sempre fazendo suas travessuras e nunca cresce; amigo leal que nunca desaparece.

Autora: Maria Luiza Pacheco - Nuporanga/SP

John Lennon, o gato de Liverpool

Hoje a tarde ouvi uns barulhos estranhos, pareciam algo caindo. Fui verificar. Observei que John Lennon estava inquieto, com os olhinhos arregalados, correndo de um lado pro outro atrás de uma escura mariposa. A guerra havia começado de fato: Ela pousava no chão, ele pulava em cima dela. Em frações de segundo o inseto saía num vôo desajeitado e sem rumo definido.
Aquilo provocava John. Agora vencer a guerra era uma questão de honra.
Na minha singela ignorância, o deixei correr atordoado pela casa. "Ele nunca vai pegá-la" pensei. Eu havia lhe subestimado. Jamais façam isso.
Minutos depois, ele para na minha frente com a mariposa na boca. Em princípio, ela se debatia entre os dentes afiados de John, depois parou, imóvel, esperando o pior. Os pequenos olhos dele estavam semicerrados, parecendo dizer "Eu venci".
Ele parecia me oferecer a mariposa como um reconhecimento da sua conquista.
Subitamente, tirei o bicho da boca dele, e a mariposa saiu cambaleando no ar, deixando parte de sua asa na boca de John.
Ele ficou me encarando, frustado.
Não dei muita importância e saí dar uma volta.
Quando cheguei, entrei no meu quarto e vi a asa da mariposa no meu travesseiro.
O preto da asa quase sem envergadura em contraste com o branco da fronha do meu travesseiro.
John estava ali, nos pés da cama.
 O verdume fosco de seu olhar delatava sua tristeza.
Eu acho que magoei o gato.

Autor: Cleiton Andrade - Rio Pardo/RS

Uma vista além do óbvio

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Sim caro leitor, estou aqui na janela do hotel admirando um pedaço da cidade quando de repente alg aqui me prende a curiosidade.
Não sei ao certo o que me chamas a atenção, só sei que é algo inestimável. O incrível, amigo, é que em meio a tanto barulho, prédios, carros, sirenes e pessoas esta cidade não perde sua
beleza histórica nem tampouco sua sutil simplicidade.
Convenhamos falar também deste prédio aqui logo à frente, sim, te convido a olhá-lo junto a mim... A prefeitura desta cidade. Será que vemos uma verdadeira democracia ou algum tipo de corrupção? Sou de Brasília, o centro do país, e como já sabemos o poder político tem lá suas frustrações, acarretando desilusões para a sociedade. E por mais que essa vista me chame à atenção, qual cidade deste país tem uma verdadeira política?
E por mais também que esta vista me lembre um pouco à corrupção, este prédio cor de laranja me deixa encantada. Aliás, toda a arquitetura deste lugar me encanta... Esse emaranhado de contemporaneidade e modernidade é único.
E gostaria de terminar esta humilde escrita com a esperança de um dia voltar aqui, cidade bonita, gente tranquila... Esta é Porto Alegre!
E agora, vamos sair da janela?

Autora: Letícia Ganassini - Brasília /DF

Margarida Guia

A mãe está lá distraída, molhando as flores nos canteiros cuidadosamente construídos na frente da casa.
A mangueira laranja conduzia a água que vinha rápida do registro hídrico da casa. As mãos da mãe seguravam o suporte preto da ponta da mangueira direcionando nas pétalas das flores e depois, nas raízes.
A menininha corria de um lado pro outro, entre as flores, os cabelos esvoaçando com o vento fresco. A mãe observava sua pequena ao mesmo tempo em que aguava. A garotinha colheu uma margarida e pôs atrás da orelha, se aproximou da mãe fazendo manha:
-Manhêêê! Deixa eu aguar?
-Claro filha! Pega a mangueira aqui.
A mulher começa a varrer o pátio, abrindo o portão e tirando a sujeira pra calçada.
-Mas essa árvore está tão seca! Vou cuidar de você! Diz a pequerrucha.
Quando a mãe volta, leva um choque e grita, pondo as mãos na cabeça:
-Agatha! A minha árvore de natal!
-Pronto mamãe! Agora já podemos comer as frutinhas.
Pela árvore natalina escorria a água da mangueira, inundando toda a sala.
As “frutinhas” da árvore não anunciavam sua morte. Pelo contrário! Piscavam e piscavam!
Amarelas, verdes, vermelhas... Agatha corria pelo piso escorregadio e gritava:
-Ela vai crescer! Já podemos comer as frutinhas!
A pequena Agatha girava ao redor da árvore segurando a barra de seu vestido...
Tirou a margarida de trás da orelha, e num ato majestoso, pôs no topo da árvore.

Autor: Cleiton Andrade - Rio Pardo/RS

Ela saiu a francesa

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

De manhã eu via ela acordar, a tarde eu a sentia no olhar, a noite íamos dançar e na escuridão do clarear da madrugada, quando ninguém com nós estava, já não éramos dois. Agora apenas um. 
Seus cabelos, teu corpo, teu cheiro, minha mão a te tocar, eu a despia com o olhar. Ela mal via, que já nos meus braços se despejava, como água em balde vazio. Eu a queria como ninguém mais, a desejava assim como uma criança a um bombom. Já não tínhamos pudor algum, alias nunca tivemos algo do tipo, e se a ética não nos permitia amar já não ligávamos, éramos totalmente antiéticos. Fora dos limites da sociedade, que com o tempo nos deixou de lado, desistimos de nos enquadra na fingida moldura perfeita.
Amantes antes mesmo do amor, nosso sexo não consistia em “amar”, mas em amor. Não nos interessava a quem amávamos, o importante era amor.
No bordel em que antigamente andava não encontrei, menina assim (pois bem meu caro, era apenas uma menina). A menina da pele mais macia em que havia tocado em toda minha existência. Seus olhos negros me viraram a cabeça, fique alucinado no seu corpo delgado. Como uma gata da madrugada, miava baixo em meu ouvido, me levando a loucura e ao prazer que ainda por me não tinha sido provado.
Depois de dois dias de perdição em um mundo desconhecido, eu já não queria me achar, mas me perder cada vez mais, nas belas curvas da menina que me levara a um lugar incógnito.
No amanhecer, após do pagamento, saiu a francesa me deixando sem remoço algum meu caro amigo e desde este tempo ainda não provei nada melhor.

Autora: Maria Castro - Arneiroz/CE

Bolacha água e areia

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Chegava, desfilando com balões coloridos e palhacinhos, cachorros-quentes, presentes e docinhos: o dia das crianças. Ele estava sentado em frente ao seu computador, pensando sobre o significado da data. Relembrar a infância, a era da inocência. Quando cream cracker era um ótimo lanchinho. Um coração se quebrava ao final do desenho favorito, mas se arrumava assim que começasse o próximo. Quando o fim de uma amizade consistia em dizer "tô de mal", e quando mindinhos entrelaçados remendavam qualquer laço. Quando "mercado" era só aonde se ia com o papai e a mamãe e saía tomando sorvete. Quando responsabilidade consistia em guardar seus brinquedos, ser bom era ir dormir na hora, ser feliz era comer chocolate e seu melhor amigo era um cachorro. Quando o amor da sua vida era sua mãe, e 12 de outubro era dia de presente.
Ele já passara por tudo isso. Um coração quebrado agora precisava de cola. Uma amizade que acabasse, acabava. Laços que se rompiam precisavam de um esforço monumental para se reatarem, e mindinhos serviam só para fazer conjunto. Não tinha mais tempo ou paciência para desenhos e brinquedos, o mercado era um lugar escuro em que um pisava no outro para chegar ao topo, sem sorvete no final. Dormir na hora era basicamente um luxo. Agora, já amou sem ser correspondido, e já deixou de corresponder. Já usou amor como meio de autopunição, e a mãe é a mãe. Cachorros dão trabalho, chocolate engorda, cream cracker tem gosto de areia e o dia da crianças é um feriado comercial. Pronto, acabou a infância. E nem lembra direito dela.

Autor: Víctor Chagas - Recife/PE

Ingresso para o Inverno Sulista

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Nasce mais um dia no fim do fundo da América do Sul. Mas o sol não brilha.
A moça do tempo avisa sobre a frente fria. Bobagem! Que é uma frente fria pra quem já está acostumado?
Pego meu casaco e minha touca, tomo um café quente e saio. Coloco os fones de ouvido no volume máximo e pareço andar sem rumo.
Minhas bochechas parecem dois tomates de tão vermelhas, minha boca fica roxa e o queixo treme.
No ônibus, imagino o verão aqui no Rio Grande. O povo indo em carreata para se banhar no nosso mar achocolatado, que mais parece uma estratégia de marketing da Nestlé, os descendentes de germânicos felizes pelo sol forte que queima  suas costas, e saem da praia com um bronzeado europeu, parecendo camarões fritos.
O inverno é nossa identidade, pra que odiá-lo?
Obrigado por existir inverno!
O amigo Minuano passa ao pé do meu ouvido. Tão rápido que chega a assobiar. Corre de um lado pro outro, dançando pela atmosfera. Às vezes sinto medo dele. Mas sei que quando o último suspiro ele der, ninguém jamais será o mesmo.
-Vamos! Ele canta nos meus tímpanos.
-O sol não vai aparecer tão cedo.

Autor: Cleiton Andrade - Rio Pardo/RS

Um Pulo Na Enxurrada

domingo, 30 de novembro de 2014

— Que chuva maravilhosa, Deus! Que chuva maravilhosa! — Dizia ela sorridente com seu pai ou irmão mais velho, eu não os conheço, então não sei de quem se trata o sujeito, mas ela, ah... ela é totalmente inesquecível, aquela voz falhada por causa dos seus sorrisos entraram na minha cabeça como música.
— Que chuva maravilhosa, Deus! Que chuva maravilhosa! — Tive o presente de ouvir isso pertinho de meus ouvidos, ela olhou para mim com os dentes a mostra e repetiu olhando pro chão para não cair.
A chuva parecia brincar com ela, ou ela quem brincava com a chuva? Não... Certeza a chuva brincava com ela... Cada passo que ela dava, dava para sentir o vento e a água acompanhando aqueles pezinhos calçados por um par de sandálias velhas.
— Que chuva maravilhosa, Deus! Que chuva maravilhosa! — Estava eu dizendo olhando ela partir de mãos  dadas com o sujeito...
Cada gota que batia em meu rosto mostrava que aquela menininha tinha razão, a chuva estava maravilhosa... Tão maravilhosa que não aguentei e repeti com todas as forças: — QUE CHUVA MARAVILHOSA, DEUS! QUE CHUVA MARAVILHOSA!
Agora sim, eu parecia tão contente quanto aquela garotinha que passou por mim, passou como uma enxurrada e eu pulei...

Autor: Reinaldo Melo - Campo Grande/MS

Meia Estrela

Ela lava, passa, cozinha, faz tudo. Faz tudo pensando em seus filhos que esperam famintos por comida, não, isso não é um caso de pobreza extrema, é apenas a mulher que caminha todo dia dentro daquele hotel. Não é um dos melhores hotéis da cidade, acho que não chega nem a meia estrela, mas lá estava ela, fiel todos os dias. Bebia bastante, mas no outro dia estava de pé para ir pro trampo, gostava de fazer aquilo não por sua causa, não porque a barriga aperta, mas porque seus filhos estão famintos.
Ela é assediada, molestada, mas não liga pra isso, o importante é ver seus filhotes satisfeitos.
— Estava boa a comida? — Perguntou ela ontem ao mais velho que em um pulo abraçou sua tão lutadora mãe.
— Estava ótima, mamãe!
O sorriso abriu aquela hora, dava pra ver a sua satisfação em satisfazer sua cria. Ela faz isso todo santo dia, menos final de semana, sua folga. Mas creio que segunda ela volta àquele muquifo. Levanta cedo com aquele sorriso forçado, lógico, ninguém gosta de acordar cedo, mas ela luta contra suas vontades e vai à luta por seus menininhos.
— Mais tarde estou de volta. Me dê uma ajudinha na casa. Mamãe já vai! — Dirá ela amanhã e tudo será como é, como o dia de toda mulher brasileira.

Autor: Reinaldo Melo - Campo Grande/MS

Bem-vindo ao SinCronizando!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Bom dia. Sou Cleiton Andrade, finalista das Olimpíadas de Língua Portuguesa. Em breve as crônicas começarão a serem publicadas. Obrigado pela atenção.