Senti o calor irradiar pelas persianas queimando minha
pele. A manhã chegara e era melhor me levantar logo. Tateei pelos cantos da
parede em direção do banheiro. Deslizara as pontas dos dedos por aqueles
tijolos tantas vezes que já tinha decorado cada ranhura no azulejo. Naturalmente, não tinha espelho no banheiro;
cegos não se olhavam no espelho. Escovei os dentes, tomei banho e penteei os
cabelos. Supunha que minha aparência estava ok.
Minha mãe diz que sou lindo, mas não sei se posso acreditar no que uma mãe
carinhosa e preocupada tem a dizer.
De café tomado, com a aparência tão luxuosa quanto um cego
pode conseguir; decidi ir ao parque. Depois que me formei no ensino médio as
coisas tornaram-se bastante entediantes. Já começava a sentir falta das
piadinhas – mentira.
Andar pela cidade é mais fácil do que você imagina. Não
preciso me preocupar em me esbarrar com alguém, assim que as pessoas me veem
com a bengala, desviam-se automaticamente de mim. Morava em uma cidade pequena,
então desde criancinha atribuí-me a tarefa de contar os passos de um lugar a
outro. Da minha casa até a padaria – cinquenta e três passos. Da minha casa até
o supermercado – duzentos e seis passos etc. Nem sempre era necessário contar infinitamente os passos, ás vezes
pedia a alguma pessoa para me guiar até certo lugar ou então, simplesmente
decorava as ruas; sabia exatamente onde estava por mero instinto.
Chegando ao parque, um lugar cheio de crianças e
brinquedos, areia, grama e sol saudável – quando o tempo resolvia cooperar -,
sentei-me no banco mais próximo. Ouvi um resmungo abafado, já tinha gente
sentada no banco e estavam se amontoando umas nas outras, abrindo espaço para eu poder me sentar. Privilégios de um deficiente visual, diria Hazel Grace de A
Culpa é das Estrelas. Sentei-me cauteloso, para não esbarrar nas pessoas,
acomodando-me pacificamente. De súbito, ouvi uma vozinha se dirigindo a mim.
-
Porque seus olhos são tão brancos? -
Era um timbre de criança. Estava sentada no banco. Ah não, esqueci meus óculos, pensei, soltando um gemido de
arrependimento.
-
Clarinha! – Repreendeu alguém, que supus ser a mãe.
-
Você quer saber mesmo? De verdade? – Disse calmamente, fitando o nada a minha
frente com uma expressão solene.
-
Quero!
-
Fadas! – Fiz uma pausa dramática, depois continuei. - Elas levaram minha visão
e em troca me deram ouvidos muito aguçados. É uma audição especial. Consigo
entender a língua dos animais, e sei exatamente o que as águas e os ventos
falam.
-
Água e vento sabem falar? – Disse ela, em tom de dúvida, sem saber se
acreditava ou não. A mãe estava silenciosa.
-
Mas é claro! As águas não gostam quando, por exemplo, você joga saco de lixo
nelas. Se sentem insultadas.
-
Meu pai diz a mesma coisa...
- Um
homem sábio.
-
Clarinha, querida, não fique incomodando o rapaz dessa forma. – Ela se levantou
e pegou suas sacolas. – Diga tchau para ele.
-
Tchau, homem-mágico!
-
Adeus, Clarinha.
Fiquei mais alguns minutos no
banco, me levantei e fui embora. Estava satisfeito com o que acontecera hoje.
Se todas as pessoas no mundo tivessem a inocência de uma criança, se sentindo
satisfeitas com uma simples explicação, sem preconceitos e receios, o mundo
seria um lugar melhor para se conviver.
Autor: Helder Pedrosa - Lagoa da Prata/MG