Lá estava, dentro de uma casa assustadoramente organizada, num canto misterioso que separava-se do resto, por apenas uma porta, poucos sabem, mas havia um universo diferente em cada cômodo daquele lar complexo.
Naquele quarto a luz centrava-se apenas na escrivaninha, em cima dela havia uma xícara de café rachada, porem cheia, e um livro misterioso de páginas cujo o tempo pintou de amarelo, Iori folheava cada pagina atentamente. O livro possuía um titulo curioso, ''Prelúdio Do Fim'' seu pai lhe dera aquele livro a pouco tempo, era uma joia da família, apesar do livro ter sido roubado de uma livraria sem nome e endereço, pelo seu bisavô, devido a sua cleptomania, seu pai escondera o livro das chamas.
O livro falava sobre muitas coisas, filosofias, guerras desconhecidas, doutrinas e até plantas alucinógenas. Chegando ao fim, encontrou páginas em branco e palavras começaram a surgir, o silêncio foi interrompido por uma melodia perfeita, de primeira reconheceu, era Chopin Nocturne Op.9 No.2.
As palavras que emergiam nas paginas limpas diziam ''já é hora de despertar'' Yoham não sentiu medo, de primeira achou que era uma alucinação, se deu conta que estava acordado e totalmente lúcido. Antes de sua linha de raciocínio acabar a campainha tocou, Ele abriu a porta e viu uma fumaça e conforme a fumaça se diluía aparecia um homem alto, negro de olhos azuis, usava suspensórios e carregava um violão.
Ficaram boa parte do tempo se encarando ate que Iori resolveu abrir a boca.
- Tenho certeza que conheço você de algum lugar. Oh meu Deus, você é Jimi Hendrix?
O homem sorriu e disse:
- Não vai me convidar pra entrar?
Ele desapareceu, Iori suspirou, fechou a porta e quando olhou pra trás, la estava o homem tocando seu violão na poltrona da sala.
Se conformou e disse:
- Quer algo pra beber, chá ou café?
O homem balançou a cabeça, com um gesto positivo.
- Ok, vou interpretar isso como um café.
O Homem acendeu um enorme baseado, quando Iori sentou no chão e bebeu, logo cuspiu, e o Homem começou a rir.
- O que foi isso?
- O melhor Whisky escocês meu caro.
-Quem é você?
- Alguns me chamam de morte, outros de Jesus Cristo, pode me chamar do que quiser, sou você, sou a natureza, digamos que faço parte de tudo e tudo faz parte de mim.
Ele ilustrava tudo na fumaça, tocava seu violão sem parar, e esclarecia todas as duvidas que Iori tinha sobre o Universo. E por fim o homem disse:
- Chegou a minha hora, nos veremos em breve, hasta lá vista baby.
E desapareceu feito fumaça. Iori acordou, pensou que tudo aquilo fosse um sonho, até que olhou para o canto da sala, e la estava, um violão e uma garrafa de Whisky.
Autor: Gabriel Soares - Brasilia/DF
Prelúdio
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Realidade Cinza
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
O dia começou cinza. Na inexpressão das paredes, no "crec-crec" de pisar em folhas secas e na perplexidade estampada nos rostos das pessoas.
Digerir o que acabaram de saber, era uma tarefa difícil, mas mais difícil era entender o porquê dela ter feito isso.
Eu sei o porquê. Aliás, sou o único que sabe. Você também quer saber não é leitor? Pois bem, saberá, mas só continue se tiver estômago, estou avisando.
Ele era um pai "exemplar", ela uma filha "adorável", a mãe "dedicada". Enfim, uma família completa e feliz aos olhos da sociedade. Até a mãe sair de casa. Leitor, lhe aviso novamente: Se não tens estômago suficiente, NÃO CONTINUE.
Ela era abusada por seu "pai" - se é que posso usar esse termo para designar uma pessoa sem caráter como essa -, violentada pela pessoa que deveria ser o seu porto seguro. Na cama, no boxe do banheiro, no carpete da sala, do modo mais nojento possível: Ele ia, "esfregava-se" nela, batia em seu rosto e se retirava como se nada tivesse acontecido, e recebia sua mãe com um sorriso cínico.
Ela já havia se habituado a essa rotina de humilhações, mas então descobriu: estava grávida do seu próprio progenitor. Foi a gota d'água. Talvez a dor emocional doesse mais que a física, e ela resolveu testar. Adeus humilhação! Ela havia prometido se livrar da mesma, e tinha dado a vida como garantia. Um pacto com o destino do qual ninguém desconfiava.
Seu sangue ainda está empossado no boxe do banheiro - um dos palcos dos horrores que levaram a este suicídio. Seus olhos estão opacos, e as moscas insistem em pousar nos cortes de canivete que mapeiam seu corpo.
Até me lembro de alguns versos daquela música do Legião Urbana, Clarisse, que martelam em minha mente desde que recebi a notícia de sua morte alguns minutos atrás:
E Clarisse está trancada no banheiro/E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete/Deitada no canto seus tornozelos sangram/E a dor é menor do que parece/Quando ela se corta ela se esquece/Que é impossível ter da vida calma e força (...) Clarisse só tem 14 anos.
Agora que você já sabe de tudo, me desculpe, não queria que seu dia também ficasse cinza.
Digerir o que acabaram de saber, era uma tarefa difícil, mas mais difícil era entender o porquê dela ter feito isso.
Eu sei o porquê. Aliás, sou o único que sabe. Você também quer saber não é leitor? Pois bem, saberá, mas só continue se tiver estômago, estou avisando.
Ele era um pai "exemplar", ela uma filha "adorável", a mãe "dedicada". Enfim, uma família completa e feliz aos olhos da sociedade. Até a mãe sair de casa. Leitor, lhe aviso novamente: Se não tens estômago suficiente, NÃO CONTINUE.
Ela era abusada por seu "pai" - se é que posso usar esse termo para designar uma pessoa sem caráter como essa -, violentada pela pessoa que deveria ser o seu porto seguro. Na cama, no boxe do banheiro, no carpete da sala, do modo mais nojento possível: Ele ia, "esfregava-se" nela, batia em seu rosto e se retirava como se nada tivesse acontecido, e recebia sua mãe com um sorriso cínico.
Ela já havia se habituado a essa rotina de humilhações, mas então descobriu: estava grávida do seu próprio progenitor. Foi a gota d'água. Talvez a dor emocional doesse mais que a física, e ela resolveu testar. Adeus humilhação! Ela havia prometido se livrar da mesma, e tinha dado a vida como garantia. Um pacto com o destino do qual ninguém desconfiava.
Seu sangue ainda está empossado no boxe do banheiro - um dos palcos dos horrores que levaram a este suicídio. Seus olhos estão opacos, e as moscas insistem em pousar nos cortes de canivete que mapeiam seu corpo.
Até me lembro de alguns versos daquela música do Legião Urbana, Clarisse, que martelam em minha mente desde que recebi a notícia de sua morte alguns minutos atrás:
E Clarisse está trancada no banheiro/E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete/Deitada no canto seus tornozelos sangram/E a dor é menor do que parece/Quando ela se corta ela se esquece/Que é impossível ter da vida calma e força (...) Clarisse só tem 14 anos.
Agora que você já sabe de tudo, me desculpe, não queria que seu dia também ficasse cinza.
Autor: Cleiton Andrade - Rio Pardo/RS
Ops!
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Sexta-feira, à noite, eu e minha amiga Leidneya estávamos nos arrumando para ir ao forró, porque, após uma longa semana de trabalho duro, a melhor coisa que fazíamos para nos divertir era ir ao Espaço Verde. Lá, além de tirarmos todo o cansaço dançando, também fazíamos boas amizades. Eu e Leidneya somos amigas de infância, nossa amizade começou desde o tempo em que o grupo Rouge fazia sucesso com o hit Ragatanga, inclusive esse é o hit que embalou e ainda embala nossa amizade até os dias atuais.
Hoje estávamos com o pensamento diferente, pois não fomos só para dançar; dessa vez estávamos dispostas a encontrar o amor de nossa vida lá. Assim, logo que chegamos, começamos a observar : estava tudo muito bonito, todos muito animados, dançando, muitos solteiros bonitões e, o melhor de tudo, mulher entrava na faixa. Depois que entramos a fila de homens querendo dançar com a gente começou a aumentar. No meio do salão, enquanto dançávamos ao som de Xote das meninas, de Luiz Gonzaga, Leidneya começou a me cutucar para avisar que tinha um bonitão olhando para mim. Eu logo me empolguei, disse para ela que se ele tivesse a fim viria atrás de mim assim que terminasse tudo.
Mais tarde, quando o relógio marcou 23 horas, Deuzemar, nosso amigo, começou a nos chamar para ir embora. Assim que chegamos à parada do ônibus, tivemos uma surpresa: o bonitão da festa estava vindo em nossa direção, Leidneya disse:
- Edneya, mulher, olha só quem tá ali!
Eu, superfeliz, passei a mão no cabelo, ajustei a roupa e disse:
- Passou a noite toda olhando pra mim no forró. Hoje tô com tudo!
Segundos depois o bonitão se aproximou de mim e disse:
- Ai, gata, passa o celular!
Comecei a falar meu número, até que ele me interrompeu:
- É um assalto!
Eu crente que o cara estava a fim de mim! Mas que nada! Ele roubou tudo que eu tinha, até meu respeito.
Hoje estávamos com o pensamento diferente, pois não fomos só para dançar; dessa vez estávamos dispostas a encontrar o amor de nossa vida lá. Assim, logo que chegamos, começamos a observar : estava tudo muito bonito, todos muito animados, dançando, muitos solteiros bonitões e, o melhor de tudo, mulher entrava na faixa. Depois que entramos a fila de homens querendo dançar com a gente começou a aumentar. No meio do salão, enquanto dançávamos ao som de Xote das meninas, de Luiz Gonzaga, Leidneya começou a me cutucar para avisar que tinha um bonitão olhando para mim. Eu logo me empolguei, disse para ela que se ele tivesse a fim viria atrás de mim assim que terminasse tudo.
Mais tarde, quando o relógio marcou 23 horas, Deuzemar, nosso amigo, começou a nos chamar para ir embora. Assim que chegamos à parada do ônibus, tivemos uma surpresa: o bonitão da festa estava vindo em nossa direção, Leidneya disse:
- Edneya, mulher, olha só quem tá ali!
Eu, superfeliz, passei a mão no cabelo, ajustei a roupa e disse:
- Passou a noite toda olhando pra mim no forró. Hoje tô com tudo!
Segundos depois o bonitão se aproximou de mim e disse:
- Ai, gata, passa o celular!
Comecei a falar meu número, até que ele me interrompeu:
- É um assalto!
Eu crente que o cara estava a fim de mim! Mas que nada! Ele roubou tudo que eu tinha, até meu respeito.
Autora: Aracy Frutuoso - Fortaleza/CE
Ela vem em Tsunami
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Naquela noite, ele sentou-se pra assistir o jogo, como de costume. Ele ali, em frente a TV, e eu preparando o nosso jantar. Lhe situarei agora meu caro leitor, do início, ao contrário chegará ao fim desta crônica sem o prazer de saber quem são seus personagens.
Era pra ser um dia como qualquer outro. Acordamos, nos cumprimentamos, falamos sobre a pequena que a alguns dias havia passado em qualquer bobagem (sem interesse algum), ele contou-me também sobre a nova moça que chegara para trabalhar na empresa, eu não tinha tanto para dizer, parecia ser tão interessante a donzela de olhos viramundescos, que continuei a escutar. Era incessante. Me dizia, de sua graça e de sua beleza, de como era bem humorada, sugeriu que ficássemos amigas - ela iria ser uma ótima companhia para as tardes solitárias.
Na hora do almoço, falou um pouco mais da menina, dizia que inspirava juventude e era jovem, tinha lá seus vinte anos -uma mulher como eu que estava a caminhar para os quarenta e cinco, já não era tão radiante assim, muito menos musa inspiradora. Fiquei insegura, já desconfiava dele a algum tempo, não que fosse algo sério, mas as inocentes saídas aos finais de semana, pra tomar uma com os amigos, agora tinham o cruel ar da dúvida: o que será que fazia depois do jogo de sinuca após umas cervejinhas? - eu não sabia meu amigo, não sabia!
Então decidi me livrar daquilo de uma só vez, durante o jantar iria dizer que já sabia de tudo, das traições, das mentiras - de tudo. Então voltamos ao começo da história leitor. O jogo acabara e o jantar estava posto sobre a mesa. Chegou a hora. Trêmula e com a boca seca, comecei a falar:
- Então, quer me contar algo? Sobre alguém, talvez?
- O que seria? Diga logo mulher! - bravejou cínico.
- A vagabunda que você anda encontrando nos últimos dias, quem é?!
- Está louca?! Não tenho ninguém a não ser você!
- E a saída semana passada para encontra-la?
- Eu só tenho você!
- Ah, coitado, pensa que me engana, eu já sei das suas descobertas por outras camas!
- Ah, por favor, isso não é traição!
- Claro que é, passou noites com outras mulheres!
- Se você é a mulher que levo para o motel, você não é minha amante, literalmente eu não te traí.
- Não mude de assunto!
- Pelo amor de Deus, temos que para com esta história de apimentar o casamento, já gastei horrores em motel, não tem como ser mais barato esse negócio? Mania doida de querer ser a mulher, a amante, a secretária tarada... Assim não aguento não!
- É bom sair do previsível as vezes!
- Ande mulher deixa de coisa, vamos comer.
Autora: Maria Castro - Arneiroz/CE
Era pra ser um dia como qualquer outro. Acordamos, nos cumprimentamos, falamos sobre a pequena que a alguns dias havia passado em qualquer bobagem (sem interesse algum), ele contou-me também sobre a nova moça que chegara para trabalhar na empresa, eu não tinha tanto para dizer, parecia ser tão interessante a donzela de olhos viramundescos, que continuei a escutar. Era incessante. Me dizia, de sua graça e de sua beleza, de como era bem humorada, sugeriu que ficássemos amigas - ela iria ser uma ótima companhia para as tardes solitárias.
Na hora do almoço, falou um pouco mais da menina, dizia que inspirava juventude e era jovem, tinha lá seus vinte anos -uma mulher como eu que estava a caminhar para os quarenta e cinco, já não era tão radiante assim, muito menos musa inspiradora. Fiquei insegura, já desconfiava dele a algum tempo, não que fosse algo sério, mas as inocentes saídas aos finais de semana, pra tomar uma com os amigos, agora tinham o cruel ar da dúvida: o que será que fazia depois do jogo de sinuca após umas cervejinhas? - eu não sabia meu amigo, não sabia!
Então decidi me livrar daquilo de uma só vez, durante o jantar iria dizer que já sabia de tudo, das traições, das mentiras - de tudo. Então voltamos ao começo da história leitor. O jogo acabara e o jantar estava posto sobre a mesa. Chegou a hora. Trêmula e com a boca seca, comecei a falar:
- Então, quer me contar algo? Sobre alguém, talvez?
- O que seria? Diga logo mulher! - bravejou cínico.
- A vagabunda que você anda encontrando nos últimos dias, quem é?!
- Está louca?! Não tenho ninguém a não ser você!
- E a saída semana passada para encontra-la?
- Eu só tenho você!
- Ah, coitado, pensa que me engana, eu já sei das suas descobertas por outras camas!
- Ah, por favor, isso não é traição!
- Claro que é, passou noites com outras mulheres!
- Se você é a mulher que levo para o motel, você não é minha amante, literalmente eu não te traí.
- Não mude de assunto!
- Pelo amor de Deus, temos que para com esta história de apimentar o casamento, já gastei horrores em motel, não tem como ser mais barato esse negócio? Mania doida de querer ser a mulher, a amante, a secretária tarada... Assim não aguento não!
- É bom sair do previsível as vezes!
- Ande mulher deixa de coisa, vamos comer.
Autora: Maria Castro - Arneiroz/CE
Intrinsecamente
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Ao lermos fazemos um gesto involuntário quando estamos nela. Ao apreciarmos um café, temos a mesma sensação de quando éramos criança, às vezes até nos lembramos de quando ficávamos no colo do nosso avô. E... ao olharmos para ela recebemos um convite.
Como uma peça tão banal pode ser, ao mesmo tempo, algo tão indispensável? Aos escritores e poetas ela se torna sempre convidativa, isso por que lá eles podem se sentir à vontade. Ou, quem sabe, mega inspirados.
Nesta hora lembro- me de alguém, a Tia Nina, que de forma alguma deixava esta faltar em sua casa:
- Tia, tia!
- O que queres agora, criança rabugenta?
- Deixe-me levá-la pra casa hoje, só por hoje!
- Já lhe disse que não. Agora, volte para o lugar de onde veio!
Ora Tia Nina, como pode fazer algo assim com uma simples criança?! Mas sabe, leitor, a verdade é que Tia Nina tinha consciência do valor inestimável daquela peça.
Mas mal sabia a Tia Nina que um dia sua amável sobrinha viraria aprendiz de escritora, e que assim como ela, prezaria tanto a tal cadeira de balanço.
Como uma peça tão banal pode ser, ao mesmo tempo, algo tão indispensável? Aos escritores e poetas ela se torna sempre convidativa, isso por que lá eles podem se sentir à vontade. Ou, quem sabe, mega inspirados.
Nesta hora lembro- me de alguém, a Tia Nina, que de forma alguma deixava esta faltar em sua casa:
- Tia, tia!
- O que queres agora, criança rabugenta?
- Deixe-me levá-la pra casa hoje, só por hoje!
- Já lhe disse que não. Agora, volte para o lugar de onde veio!
Ora Tia Nina, como pode fazer algo assim com uma simples criança?! Mas sabe, leitor, a verdade é que Tia Nina tinha consciência do valor inestimável daquela peça.
Mas mal sabia a Tia Nina que um dia sua amável sobrinha viraria aprendiz de escritora, e que assim como ela, prezaria tanto a tal cadeira de balanço.
Autora: Letícia Ganassini - Brasília/DF
Inveja, ou, O Combustível da Arte
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Era uma vez que acordei mal-humorado. Antes de abrir os olhos, fiquei por uns momentos ouvindo o meu despertador, e é realmente incrível como uma pessoa pode odiar qualquer som só porque ele a fez acordar. Eu, por exemplo, vivo em medo constante de odiar pianos e passarinhos apenas porque é esse o som que me chama todas as manhãs. Ao contrário do que dizem os otimistas, o canto dos espécimes passeriformes é um ruído extremamente irritante, comparável ao grito de um violino desafinado, quando é a primeira coisa que se ouve pela manhã. Quanto ao piano, não faço comparação, simplesmente por não conseguir explicar a ira que as teclas de marfim me causam toda aurora. Felizmente, esse meu ódio é direcionado apenas à certa junção de melodias destes dois fazedores de barulho que me desperta seis dos sete dias da semana.
Silenciei aquele terrível punhado de sons e me levantei. Chovia, e fazia sol. Fiquei mais feliz: quem sabe a aula de educação física não seria cancelada? (Digo em avanço, não foi). Toda e qualquer pessoa que viva em um país tropical, em que os fenômenos meteorológicos não se apresentam tão bem definidos como nas áreas temperadas, sabe muito bem o que acontece quando um raio de sol esbarra numa gotícula d’água suspensa no ar: esse raio, uno e branco, é dividido pela água nas sete cores do espectro visível. Aos que não apreciam a linguagem rebuscada, explicito que se trata dum arco-íris. Esta ímpar demonstração natural do funcionamento de prismas, que geralmente deixa o coração feliz, sempre teve em mim um efeito estranho, o mesmo que têm as obras de arte. Eu olho para elas, ao mesmo tempo com reverência e inveja; quem me dera poder fazer algo tão belo! Bem, não sou Klimt, nem sou as leis da óptica, e, sabendo que provavelmente nunca pintarei um retrado de Adele Bloch-Bauer e que muito menos dividirei a luz ao toque, fiquei melancólico. Perdão, retifico-me, fiquei nostálgico. Não são a mesma coisa, e quem já sentiu ambos sabe bem do que falo.
O que mais aconteceu no meu dia, pouco importa. É importante apenas salientar que a sensação de falta, de saudade, me acompanhou com o sol. Se eu pudesse apenas ter ficado a manhã toda sentado, observando o arco-íris, seria tão bom! Os fenômenos naturais têm um belo jeito de nos fazer sentir pequeneza, uma certa inferioridade. Mas não entenda mal o que digo. Veja, ser inferior à natureza é completamente diferente de ser inferior a outro ser. A natureza não nos demanda nada, apenas nos mostra o que conhece. Nos ensina, não nos pede. Quem nunca sentiu um arrepio ao ouvir um trovão ou se sentiu deselegante quando via uma folha ir com tanta fluidez ao chão? Queria tanto ter ficado me sentindo pequeno em comparação ao arco-íris, em vez de ter que sair de casa e me sentir pequeno e só pequeno, sem me comparar a nada. Mas a verdade é que me senti, naquele dia todo, como se tivesse perdido cinco centímetros. Como se estivesse curvado. Sentia falta de algo. Finalmente cheguei à minha casa. Sentei na rede, fechei os olhos. Comecei a cantarolar La vie en rose e, de repente, senti vontade de ter mais inveja. Coloquei a tocar As quatro estações. Então descobri porque me sentia tão pequeno. Descobri do que sentia falta. Apreciei a música e o alívio de saber o porquê da sensação estranha. Sabia bem o que queria, naquele momento: escrever.
Autor: Víctor Chagas - Recife/PE
Silenciei aquele terrível punhado de sons e me levantei. Chovia, e fazia sol. Fiquei mais feliz: quem sabe a aula de educação física não seria cancelada? (Digo em avanço, não foi). Toda e qualquer pessoa que viva em um país tropical, em que os fenômenos meteorológicos não se apresentam tão bem definidos como nas áreas temperadas, sabe muito bem o que acontece quando um raio de sol esbarra numa gotícula d’água suspensa no ar: esse raio, uno e branco, é dividido pela água nas sete cores do espectro visível. Aos que não apreciam a linguagem rebuscada, explicito que se trata dum arco-íris. Esta ímpar demonstração natural do funcionamento de prismas, que geralmente deixa o coração feliz, sempre teve em mim um efeito estranho, o mesmo que têm as obras de arte. Eu olho para elas, ao mesmo tempo com reverência e inveja; quem me dera poder fazer algo tão belo! Bem, não sou Klimt, nem sou as leis da óptica, e, sabendo que provavelmente nunca pintarei um retrado de Adele Bloch-Bauer e que muito menos dividirei a luz ao toque, fiquei melancólico. Perdão, retifico-me, fiquei nostálgico. Não são a mesma coisa, e quem já sentiu ambos sabe bem do que falo.
O que mais aconteceu no meu dia, pouco importa. É importante apenas salientar que a sensação de falta, de saudade, me acompanhou com o sol. Se eu pudesse apenas ter ficado a manhã toda sentado, observando o arco-íris, seria tão bom! Os fenômenos naturais têm um belo jeito de nos fazer sentir pequeneza, uma certa inferioridade. Mas não entenda mal o que digo. Veja, ser inferior à natureza é completamente diferente de ser inferior a outro ser. A natureza não nos demanda nada, apenas nos mostra o que conhece. Nos ensina, não nos pede. Quem nunca sentiu um arrepio ao ouvir um trovão ou se sentiu deselegante quando via uma folha ir com tanta fluidez ao chão? Queria tanto ter ficado me sentindo pequeno em comparação ao arco-íris, em vez de ter que sair de casa e me sentir pequeno e só pequeno, sem me comparar a nada. Mas a verdade é que me senti, naquele dia todo, como se tivesse perdido cinco centímetros. Como se estivesse curvado. Sentia falta de algo. Finalmente cheguei à minha casa. Sentei na rede, fechei os olhos. Comecei a cantarolar La vie en rose e, de repente, senti vontade de ter mais inveja. Coloquei a tocar As quatro estações. Então descobri porque me sentia tão pequeno. Descobri do que sentia falta. Apreciei a música e o alívio de saber o porquê da sensação estranha. Sabia bem o que queria, naquele momento: escrever.
Autor: Víctor Chagas - Recife/PE
Menina Miçanga
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
É de tarde e o temporal está se anunciando. Durante os últimos dias escaldantes, o desejo é de chuva. Que ela venha. E rápido.
Agora, relâmpagos riscam o céu, que de azul plácido foi para cinza chumbo, causando certa apreensão aqui em casa. Mas por parte dos meus pais, porque eu estava tranquilo. Minha mãe corre atônita, tapando os espelhos com toalhas de banho. Meu pai fazia uma cruz de sal e erva-mate na madeira mogno da mesa, no propósito de espantar os perigos que a chuva podia trazer.
- Santa Bárbara, São Jerônimo! - berra minha mãe, assim que um trovão abala nossos tímpanos.
Na janela da sala observo a tempestade - é isso que faço quando o clima está assim.
A chuva começa a cair. Pingos grossos, em demasia, batiam no asfalto da rua e voltavam, como a luz bate no espelho e reflete. Tal fato deixava as sinalizações, lojas, e quase tudo, imperceptível.
Meus olhos se acostumam com a vista - a imperceptibilidade do pequeno mundo da minha janela - até que algo interrompe a visão.
É uma menina, totalmente encharcada, com uma beleza excepcional.
Ela abre os braços e dá piruetas, a camiseta branca molhada se ajusta em seu corpo perfeito. Se abriga no que parece ser a marquise de uma loja, olha para frente, e me detecta.
Seu olhar bate de frente com o meu e ela faz sinal para me unir a eles - ela, a chuva, e a marquise.
Sem pestanejar saí correndo pela porta, meus pais já haviam se recolhido, e a menina estava a poucos metros de distância.
A marquise era de fato uma marquise. A garota era ainda mais bela. Como num ato automático, nos sentamos na soleira da vitrine da loja. Ela usava uma pulseira de miçangas e girava-a no dedo como se gira um bambolê na cintura.
- Oi - eu disse, rompendo o silêncio que estava instaurado.
- Olá - ela respondeu, prestando atenção no cintilar das miçangas na órbita em volta do seu dedo.
Em súbito, a moça me puxa pelo braço, me levando de volta a chuva, me fazendo seguir suas piruetas e abrir os braços como um maluco, gritando "sinta a chuva lavar sua mente".
De repente, sem pensar, a puxo para perto de mim e nossos peitos se chocam, coloco uma mecha de seu cabelo castanho atrás de sua orelha, e lhe dou um beijo. Nossas bocas ficam entrelaçadas por um tempo que parece ser uma eternidade. Quando terminamos ela abre um largo sorriso, que vindo dela só podia ser magnífico, e diz:
- Prazer em te conhecer.
Eu a beijo novamente, e então ela sai correndo pela rua, agora mais visível, e se vira uma vez para sorrir novamente, pra só então, sumir pela saída a esquerda.
Volto a marquise; sento na soleira da vitrine novamente.
- Não sei o nome dela, número, tampouco endereço. Ela não me deixou nada - digo, pondo os pensamentos em voz alta.
Olho para o lado e percebo que ela esqueceu a pulseira de miçangas.
Miçangas laranjas e roxas, sustentadas por um vil fio de náilon. Talvez feita em casa ou comprada de um ambulante.
- Pelo menos isso! - exclamei.
Já que ela não estava ali, as miçangas a representariam então, mantendo o quarteto: A chuva, a marquise, eu e a menina, agora uma menina miçanga.
A chuva ia indo embora, a cruz de sal e erva estava funcionando.
Com meus passos lentos me dirigia novamente a minha residência, girando a pulseira no dedo, observando o cintilar e a órbita das miçangas, tal como ela faz.
Agora, relâmpagos riscam o céu, que de azul plácido foi para cinza chumbo, causando certa apreensão aqui em casa. Mas por parte dos meus pais, porque eu estava tranquilo. Minha mãe corre atônita, tapando os espelhos com toalhas de banho. Meu pai fazia uma cruz de sal e erva-mate na madeira mogno da mesa, no propósito de espantar os perigos que a chuva podia trazer.
- Santa Bárbara, São Jerônimo! - berra minha mãe, assim que um trovão abala nossos tímpanos.
Na janela da sala observo a tempestade - é isso que faço quando o clima está assim.
A chuva começa a cair. Pingos grossos, em demasia, batiam no asfalto da rua e voltavam, como a luz bate no espelho e reflete. Tal fato deixava as sinalizações, lojas, e quase tudo, imperceptível.
Meus olhos se acostumam com a vista - a imperceptibilidade do pequeno mundo da minha janela - até que algo interrompe a visão.
É uma menina, totalmente encharcada, com uma beleza excepcional.
Ela abre os braços e dá piruetas, a camiseta branca molhada se ajusta em seu corpo perfeito. Se abriga no que parece ser a marquise de uma loja, olha para frente, e me detecta.
Seu olhar bate de frente com o meu e ela faz sinal para me unir a eles - ela, a chuva, e a marquise.
Sem pestanejar saí correndo pela porta, meus pais já haviam se recolhido, e a menina estava a poucos metros de distância.
A marquise era de fato uma marquise. A garota era ainda mais bela. Como num ato automático, nos sentamos na soleira da vitrine da loja. Ela usava uma pulseira de miçangas e girava-a no dedo como se gira um bambolê na cintura.
- Oi - eu disse, rompendo o silêncio que estava instaurado.
- Olá - ela respondeu, prestando atenção no cintilar das miçangas na órbita em volta do seu dedo.
Em súbito, a moça me puxa pelo braço, me levando de volta a chuva, me fazendo seguir suas piruetas e abrir os braços como um maluco, gritando "sinta a chuva lavar sua mente".
De repente, sem pensar, a puxo para perto de mim e nossos peitos se chocam, coloco uma mecha de seu cabelo castanho atrás de sua orelha, e lhe dou um beijo. Nossas bocas ficam entrelaçadas por um tempo que parece ser uma eternidade. Quando terminamos ela abre um largo sorriso, que vindo dela só podia ser magnífico, e diz:
- Prazer em te conhecer.
Eu a beijo novamente, e então ela sai correndo pela rua, agora mais visível, e se vira uma vez para sorrir novamente, pra só então, sumir pela saída a esquerda.
Volto a marquise; sento na soleira da vitrine novamente.
- Não sei o nome dela, número, tampouco endereço. Ela não me deixou nada - digo, pondo os pensamentos em voz alta.
Olho para o lado e percebo que ela esqueceu a pulseira de miçangas.
Miçangas laranjas e roxas, sustentadas por um vil fio de náilon. Talvez feita em casa ou comprada de um ambulante.
- Pelo menos isso! - exclamei.
Já que ela não estava ali, as miçangas a representariam então, mantendo o quarteto: A chuva, a marquise, eu e a menina, agora uma menina miçanga.
A chuva ia indo embora, a cruz de sal e erva estava funcionando.
Com meus passos lentos me dirigia novamente a minha residência, girando a pulseira no dedo, observando o cintilar e a órbita das miçangas, tal como ela faz.
Autor: Cleiton Andrade - Rio Pardo/RS
O Templo
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
O sol ilumina meu rosto me lembrando que é hora de acordar.
Me acordo pronto para conhecer outro Universo.
Pelas ruas vejo o vaivém da cidade grande, fico perplexo com todo aquele "fuzuê" entre pessoas e veículos. Quando me deixo desconcentrar, já é hora de descer daquela aglomeração de palhas soltas ao vento. Finalmente chego ao local onde já me deu alegrias e tristezas - estou no Templo.
Assim como na Torre de Babel, ouço línguas estrangeiras. Dialetos chamam minha atenção. Me sinto em outro país, mas na verdade só estou fora do Sergipe mesmo.
De repente interrompem minha observação. Com um jeito gentil me convidam a entrar naquilo que seria singular. A caminhada é um pouco longa, mas minhas pernas não queriam parar. O entusiasmo já estava evidente no meu rosto. Do terceiro andar eu conseguia rever todos os lances mais incríveis. Volto no tempo e enxergo torcedores lotando o local, olho para baixo e me lembro de um lance que não posso esquecer: A final do Campeonato Carioca. Meus olhos ficaram vidrados na cena que se desenrolava, observava as minúcias do jogo com exímia atenção.
Aos 43 minutos do segundo tempo uma falta à favor do Rubro Negro. O sacerdote toma a bola nas mãos e respira fundo, concentrando-se. Ao soar do apito do árbitro ele corre e bate a falta com perfeição. A torcida se junta e grita numa voz só, os sotaques se difundem para berrar a palavra tão esperada por todos:
- Gooooooool!!!!!
Não era apenas um gol, era um milagre. Por isso chamamos-o de Templo, onde só a bola nos proporciona um milagre desses. Esse é o Templo, esse é o Maracanã.
Autor: João Rafael - Muribeca/SE
Me acordo pronto para conhecer outro Universo.
Pelas ruas vejo o vaivém da cidade grande, fico perplexo com todo aquele "fuzuê" entre pessoas e veículos. Quando me deixo desconcentrar, já é hora de descer daquela aglomeração de palhas soltas ao vento. Finalmente chego ao local onde já me deu alegrias e tristezas - estou no Templo.
Assim como na Torre de Babel, ouço línguas estrangeiras. Dialetos chamam minha atenção. Me sinto em outro país, mas na verdade só estou fora do Sergipe mesmo.
De repente interrompem minha observação. Com um jeito gentil me convidam a entrar naquilo que seria singular. A caminhada é um pouco longa, mas minhas pernas não queriam parar. O entusiasmo já estava evidente no meu rosto. Do terceiro andar eu conseguia rever todos os lances mais incríveis. Volto no tempo e enxergo torcedores lotando o local, olho para baixo e me lembro de um lance que não posso esquecer: A final do Campeonato Carioca. Meus olhos ficaram vidrados na cena que se desenrolava, observava as minúcias do jogo com exímia atenção.
Aos 43 minutos do segundo tempo uma falta à favor do Rubro Negro. O sacerdote toma a bola nas mãos e respira fundo, concentrando-se. Ao soar do apito do árbitro ele corre e bate a falta com perfeição. A torcida se junta e grita numa voz só, os sotaques se difundem para berrar a palavra tão esperada por todos:
- Gooooooool!!!!!
Não era apenas um gol, era um milagre. Por isso chamamos-o de Templo, onde só a bola nos proporciona um milagre desses. Esse é o Templo, esse é o Maracanã.
Autor: João Rafael - Muribeca/SE
E morreu...
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Um choro alto me chamou a atenção enquanto passava pela rua. Só quando parei assustado para ver de onde vinha o os murmúrios angustiantes reparei que estava parado na frente do cemitério central. Não conhecia ninguém, acabara de chegar naquela pequena e calma cidade.
Entrei sem compromisso no recinto, estava lá apenas de passagem. Ficaria ali só para observar o momento. O lugar é quente como um forno e aumentou, sem intenção, o aroma dos cravos deixados por parentes e amigos do falecido.
No centro estava o caixão com o defunto coberto por um mosquiteiro com enfeites religiosos e com os tais cravos por trás. Ao lado estão algumas pessoas, suponho que sejam um casal de filhos, já adultos, cientes de como lidar com a inimiga inevitável - a morte - e a viúva - que já batalhara tantas vezes com tal.
Eles recebiam os pêsames dos amigos e parentes. A moça aos prantos segura a mão do pai por baixo do mosquiteiro e o rapaz afaga a cabeça da viúva que chorava com berros e soluços por causa da perda.
Sento no fundo do local em uma fileira de bancos vazia, ninguém parece ter me notado. Olho em todos os cantos, em todos lá presentes. É espantoso como as classes aparecem em todos os lugares. Lá havia aqueles que realmente choram por causa da recém perda; aqueles que estão lá só para cumprimentar os filhos e a viúva para depois sentar em um banco e ficar olhando para qualquer canto com um olhar vago; aqueles que conversam e riem alto, sem respeito algum ao momento e aqueles que rezam pela alma do irmão.
Chegara ali o padre, aquele que faria uma pequena reza pela alma para que ela pudesse ir em paz. Enquanto a oração acontecia, alguns da classe conversamos e rimos alto não estamos nem aí com o defunto, continuavam na sua prosa e acabei ouvindo a pergunta:
-De que ele morreu?
E como se fosse um expert da vida do falecido, alguém respondeu com desdém, como se já tivesse respondido isso muitas vezes:
-Morreu de enfarte, não teve tempo nem de chegar ao hospital.
Acabada a reza, juro ter visto uma pomba branca voar de uma árvore próxima de lá, talvez fora um sinal, a alma do pobre homem subira aos céus. Já precisava sair dali. Fui até o caixão ver o corpo daquele que eu falara tanto. O aroma inebriante dos cravos que senti no início estava mais forte ali perto. Começo olhando-o desde os pés cercados de flores. Ele não era muito alto, com algumas saliências, nada que impressionasse.
Quando vi seu rosto é possível que tenha gritado. Fico com nossos rostos frente a frente e é como se houvesse um espelho entre nós. Balanço o corpo imóvel, ignorando aqueles ali perto, como se pudesse ressuscitá-lo. Durante aquela briga injusta o aroma dos cravos já me adoecia.
Então tudo se apagou e senti minha esposa me cutucando e reclamando de meus murmúrios noturnos. Abri o olho, estou no meu quarto, deitado na cama. Na minha frente, em cima do criado-mudo, quase embaixo de meu nariz, há um incenso de cravos que minha esposa colocara ali.
Foi apenas um sonho e agora eu voltarei a dormir. Talvez tenha sido uma premonição, mas não me importo. O que vier enfrentarei de bom grado.
Autor: André Figueiredo - Areado/MG
Entrei sem compromisso no recinto, estava lá apenas de passagem. Ficaria ali só para observar o momento. O lugar é quente como um forno e aumentou, sem intenção, o aroma dos cravos deixados por parentes e amigos do falecido.
No centro estava o caixão com o defunto coberto por um mosquiteiro com enfeites religiosos e com os tais cravos por trás. Ao lado estão algumas pessoas, suponho que sejam um casal de filhos, já adultos, cientes de como lidar com a inimiga inevitável - a morte - e a viúva - que já batalhara tantas vezes com tal.
Eles recebiam os pêsames dos amigos e parentes. A moça aos prantos segura a mão do pai por baixo do mosquiteiro e o rapaz afaga a cabeça da viúva que chorava com berros e soluços por causa da perda.
Sento no fundo do local em uma fileira de bancos vazia, ninguém parece ter me notado. Olho em todos os cantos, em todos lá presentes. É espantoso como as classes aparecem em todos os lugares. Lá havia aqueles que realmente choram por causa da recém perda; aqueles que estão lá só para cumprimentar os filhos e a viúva para depois sentar em um banco e ficar olhando para qualquer canto com um olhar vago; aqueles que conversam e riem alto, sem respeito algum ao momento e aqueles que rezam pela alma do irmão.
Chegara ali o padre, aquele que faria uma pequena reza pela alma para que ela pudesse ir em paz. Enquanto a oração acontecia, alguns da classe conversamos e rimos alto não estamos nem aí com o defunto, continuavam na sua prosa e acabei ouvindo a pergunta:
-De que ele morreu?
E como se fosse um expert da vida do falecido, alguém respondeu com desdém, como se já tivesse respondido isso muitas vezes:
-Morreu de enfarte, não teve tempo nem de chegar ao hospital.
Acabada a reza, juro ter visto uma pomba branca voar de uma árvore próxima de lá, talvez fora um sinal, a alma do pobre homem subira aos céus. Já precisava sair dali. Fui até o caixão ver o corpo daquele que eu falara tanto. O aroma inebriante dos cravos que senti no início estava mais forte ali perto. Começo olhando-o desde os pés cercados de flores. Ele não era muito alto, com algumas saliências, nada que impressionasse.
Quando vi seu rosto é possível que tenha gritado. Fico com nossos rostos frente a frente e é como se houvesse um espelho entre nós. Balanço o corpo imóvel, ignorando aqueles ali perto, como se pudesse ressuscitá-lo. Durante aquela briga injusta o aroma dos cravos já me adoecia.
Então tudo se apagou e senti minha esposa me cutucando e reclamando de meus murmúrios noturnos. Abri o olho, estou no meu quarto, deitado na cama. Na minha frente, em cima do criado-mudo, quase embaixo de meu nariz, há um incenso de cravos que minha esposa colocara ali.
Foi apenas um sonho e agora eu voltarei a dormir. Talvez tenha sido uma premonição, mas não me importo. O que vier enfrentarei de bom grado.
Autor: André Figueiredo - Areado/MG
Um jantar especial
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Minha prima, meu irmão e eu, todos graciosamente vestidos
com trajes finos e cabelos cuidadosamente arrumados, nenhum fio fora do lugar.
A ansiedade tomava conta de nós, íamos jantar na casa dos pais de minha tia.
Estávamos prestes a conhecer a mãe, o pai e uma das irmãs
dela, mas dentro do carro, em meio a recados clichês como “se comportem” e “não
quero que tenham vergonha”, surge algo que prende minha atenção, um aviso:
- Só tomem cuidado com os cabelos! A kemily (a irmã) é
autista e, se não gostar de vocês, ela puxa!
Confesso que isso me incomodou, não o fato de ela ser
autista, mas sim o medo de não gostar de mim e, consequentemente, eu acabar
sendo agredida. Fiquei pensando nisso durante o caminho todo, pesei até em
prender meu cabelo, talvez fazer um coque, mas isso não ajudaria muito.
Não, caro leitor, não me orgulho de ter pensado de tal
maneira, mas como eu poderia ficar despreocupada? E se tudo desse errado? Logo
percebi que eles não deixariam que nada acontecesse, então, quando finalmente
chegamos, eu não pensei mais nesse assunto.
Descemos do carro já na garagem, quase não consegui me
equilibrar sobre meu salto, havia passado horas sentada e minhas pernas estavam
dormentes. Fomos recebidos pelo pai, que logo nos ofereceu cadeiras e algo para
beber.
Depois de trinta minutos sentada na varanda, olhei para
porta de vidro e vi uma imagem refletida: uma menina que parecia ter uns vinte
anos, um pouco mais baixa que eu, branca como neve, com cabelos loiros encaracolados
e lindos olhos verdes. Era Kemily.
Enquanto ela caminhava lentamente em minha direção, lembrei-me
do aviso dentro do carro, fiquei imóvel, olhei para minha tia e ela fez um
sinal, não era para eu temer.
Assim que estava frente a mim, começou a reparar minha
roupa, segurou a ponta da saia rodada de meu vestido, passou as mãos no meu cabelo,
totalmente diferente do dela, viu que eu estava maquiada e logo pediu para
também ficar.
Minha prima, alguns anos mais nova que eu e muito mimada,
fugiu dela. Desviou, não podia vê-la indo em sua direção que ia para outro
canto.
Já era tarde quando fomos jantar, mas em compensação a
comida estava ótima. E lá vem outro aviso:
- Fiquem atentos para “ninguém” pegar seus copos.
Eu estava sentada longe, não teria como ela alcançar meu
copo, mas meu irmão sentou bem na sua frente. Uma olhadinha para o lado e...
shuaa! Um copo cheio de Coca Cola gelada derramada na camisa branca do
pestinha.
Foi quase uma
hora rindo, afinal o atentado tinha tomado um banho inesperado. Finalmente ele
tinha ficado quieto.
A mãe dela, enquanto tirava a bagunça da mesa, nos contou
que fazia dois dias que ela estava doente e se recusava a comer, mas com a
gente lá não houve problemas, pelo contrário, comeu bastante e até começou a
roubar o frango que estava na tigela decorada com flores estacionada no centro
da mesa.
Com a barriga cheia e muito cansados, nos despedimos, a
viagem de volta era longa, não víamos a hora de chegarmos em casa e contar a
todos sobre o jantar, o banho de Coca e de como a prima mimada fugia da menina.
Muitos abraços, agradecimentos e “volte sempre” , entramos no carro e saímos de
lá olhando para trás, pensando em quando teríamos um outro jantar tão especial.
Autora: Maria Luiza Pacheco - Nuporanga/SP
Menino Pinóquio
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Ali sentado no sofá, totalmente imóvel, limpinho e calado, ele parecia mais um boneco de madeira do que um menino de cinco anos. Os olhos arregalados e fixos na TV de 14 da sala comprovavam isso.
Estava como num transe enigmático; Como uma marionete sem cordões a espera de que algum Gepeto da vida o desejasse como um moleque de verdade.
A Prima que - infelizmente - não tinha cabelos azul turquesa, preocupada com o estado de espírito da estatua de criança a sua frente, receosa pela falta de infância, ofereceu-lhe uma bola, dizendo:
- Menino, desliga a TV e vai brincar lá fora!
O Menino com o olhar vago - levando quase três segundos para processar a pergunta - respondeu baixo e sem nenhum animo:
- Não quero brincar sozinho.
"Então era SÓ isso! Ele SÓ estava um pouco... SÓ!" pensou esperançosa a Prima, logo achando uma solução:
- Eu brinco contigo, Menino.
O tempo correu rápido, quase voando enquanto o Menino de madeira - que agora mais parecia feito de sonhos - seguia tarde afora brincando com sua Prima - que como que por mágica, voltara a ser pequenina do tamanho de um botão.
Ao despontar da noitinha, com a Lua querendo aparecer ao longe, o Menino já suava feito cuscuz e suas bochechas - mais coradas que o vermelho da fita nos cabelos da Prima - denunciavam quem havia de ter vencido aquela guerra fria.
Estatelado no chão ao lado da Prima, balançando as perninhas no ar, não era mais um ser imóvel, e reparando nas manchas de barro vermelho no seu short via-se que não estava mais limpinho... Ah e ainda tinha a doce canção que murmurava animado, mostrando que também não era mais tão calado assim.
Virando-se para a Prima, usando o máximo do charme que um garoto suado pode ter, pediu um pouco ofegante:
- Vamos apostar uma corrida? Não estou cansado!
E naquele momento por conta da pequena mentira, seu nariz poderia ter crescido meio metro!
Mas para a Prima, satisfeita, aquilo era só mais um detalhe... O pedido do Menino gritava alto em sua cabeça como um sincero "Me deixa ser um menino de verdade". E por isso, sorrindo, aceitou o desafio.
Eu - caro leitor - poderia jurar que por um instante naquela corrida, vi que os cabelos da Prima ganharam um sereno tom de azul e que o Menino Pinóquio tinha enfim virado um moleque de verdade.
Autora: Danielly Lopes - Araguaína/TO
Estava como num transe enigmático; Como uma marionete sem cordões a espera de que algum Gepeto da vida o desejasse como um moleque de verdade.
A Prima que - infelizmente - não tinha cabelos azul turquesa, preocupada com o estado de espírito da estatua de criança a sua frente, receosa pela falta de infância, ofereceu-lhe uma bola, dizendo:
- Menino, desliga a TV e vai brincar lá fora!
O Menino com o olhar vago - levando quase três segundos para processar a pergunta - respondeu baixo e sem nenhum animo:
- Não quero brincar sozinho.
"Então era SÓ isso! Ele SÓ estava um pouco... SÓ!" pensou esperançosa a Prima, logo achando uma solução:
- Eu brinco contigo, Menino.
O tempo correu rápido, quase voando enquanto o Menino de madeira - que agora mais parecia feito de sonhos - seguia tarde afora brincando com sua Prima - que como que por mágica, voltara a ser pequenina do tamanho de um botão.
Ao despontar da noitinha, com a Lua querendo aparecer ao longe, o Menino já suava feito cuscuz e suas bochechas - mais coradas que o vermelho da fita nos cabelos da Prima - denunciavam quem havia de ter vencido aquela guerra fria.
Estatelado no chão ao lado da Prima, balançando as perninhas no ar, não era mais um ser imóvel, e reparando nas manchas de barro vermelho no seu short via-se que não estava mais limpinho... Ah e ainda tinha a doce canção que murmurava animado, mostrando que também não era mais tão calado assim.
Virando-se para a Prima, usando o máximo do charme que um garoto suado pode ter, pediu um pouco ofegante:
- Vamos apostar uma corrida? Não estou cansado!
E naquele momento por conta da pequena mentira, seu nariz poderia ter crescido meio metro!
Mas para a Prima, satisfeita, aquilo era só mais um detalhe... O pedido do Menino gritava alto em sua cabeça como um sincero "Me deixa ser um menino de verdade". E por isso, sorrindo, aceitou o desafio.
Eu - caro leitor - poderia jurar que por um instante naquela corrida, vi que os cabelos da Prima ganharam um sereno tom de azul e que o Menino Pinóquio tinha enfim virado um moleque de verdade.
Autora: Danielly Lopes - Araguaína/TO
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