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Realidade Cinza

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O dia começou cinza. Na inexpressão das paredes, no "crec-crec" de pisar em folhas secas e na perplexidade estampada nos rostos das pessoas.
Digerir o que acabaram de saber, era uma tarefa difícil, mas mais difícil era entender o porquê dela ter feito isso.
Eu sei o porquê. Aliás, sou o único que sabe. Você também quer saber não é leitor? Pois bem, saberá, mas só continue se tiver estômago, estou avisando.
Ele era um pai "exemplar", ela uma filha "adorável", a mãe "dedicada". Enfim, uma família completa e feliz aos olhos da sociedade. Até a mãe sair de casa. Leitor, lhe aviso novamente: Se não tens estômago suficiente, NÃO CONTINUE.
Ela era abusada por seu "pai" - se é que posso usar esse termo para designar uma pessoa sem caráter como essa -, violentada pela pessoa que deveria ser o seu porto seguro. Na cama, no boxe do banheiro, no carpete da sala, do modo mais nojento possível: Ele ia, "esfregava-se" nela, batia em seu rosto e se retirava como se nada tivesse acontecido, e recebia sua mãe com um sorriso cínico.
Ela já havia se habituado a essa rotina de humilhações, mas então descobriu: estava grávida do seu próprio progenitor. Foi a gota d'água. Talvez a dor emocional doesse mais que a física, e ela resolveu testar. Adeus humilhação! Ela havia prometido se livrar da mesma, e tinha dado a vida como garantia. Um pacto com o destino do qual ninguém desconfiava.
Seu sangue ainda está empossado no boxe do banheiro - um dos palcos dos horrores que levaram a este suicídio. Seus olhos estão opacos, e as moscas insistem em pousar nos cortes de canivete que mapeiam seu corpo.
Até me lembro de alguns versos daquela música do Legião Urbana, Clarisse, que martelam em minha mente desde que recebi a notícia de sua morte alguns minutos atrás:
E Clarisse está trancada no banheiro/E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete/Deitada no canto seus tornozelos sangram/E a dor é menor do que parece/Quando ela se corta ela se esquece/Que é impossível ter da vida calma e força (...) Clarisse só tem 14 anos.
Agora que você já sabe de tudo, me desculpe, não queria que seu dia também ficasse cinza.

Autor: Cleiton Andrade - Rio Pardo/RS

Um comentário

  1. Me debulho em lagrimas sempre que a leio...
    Nossa realidade cinza, atual e cruel.

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