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Namorado de sonho

sexta-feira, 31 de julho de 2015

          Estávamos indo conhecer a família do meu namorado. Papai, mamãe e eu. Meus pais idolatravam o garoto, mas eu não lembrava que estava namorando...
          No carro durante o caminho eu ia pensando no tal namorado, mas nada me vinha à cabeça. Aquilo estava sem cabimento nenhum, como eu não me lembrava do meu próprio namorado?!
          Chegando ao lugar, que mais parecia uma chácara bem humilde, a família dele começou a se apresentar um por um e pelo visto, só quem achava aquilo estranho era eu. Cumprimentei a avó já bem velhinha, brinquei um pouco com a irmã e os primos mais novos e tentei ajudar no almoço, mas a mãe dele, digo a sogrinha, e as tias não deixaram. A família era enorme, e aquela situação me parecia tão ilusória quanto ele próprio.
          Sonho. Era isso, só podia ser isso! Um sonho!
          Como aquelas cenas de filme, enquanto eu sorria amarelo pra todo mundo, uma mão me puxou pela cintura e tapando meus olhos alguém me levou para um canto vazio. Um garoto. Um garoto bonito, pouco mais alto que eu. Ele começou a conversar comigo. Quem era aquele figura, eu não sei e aposto que ainda não o vi por aí perdido em meus pensamentos... Mas que belo sorriso ele tinha.
          Louca. Eu só podia estar louca. Ele ali de olhinhos brilhantes na minha frente, provavelmente era o 1° fruto de minha insanidade!
          Ele conversava comigo animado e ansioso, e eu lá achando tudo sem pé nem cabeça. De que casamento ele estava falando?!
          Antes de sanar minha curiosidade, ele me abraçou forte pela cintura e – juro!- me arrepiei do dedinho do pé até o ultimo fio de cabelo.  E ele veio chegando, chegando... Opa! Mas aquilo não era real, era um sonho certo?! Tinha que me esquivar. Tentei mudar de assunto, virar o rosto, mas algo me prendia nos braços dele de tal forma que ao invés de amor, comecei a sentir medo, queria sair dali, gritar; mas quanto mais eu tentava mais ficava estranho.
          Onde estava aquela família enorme quando se precisava dela?
          Um barulho de riso no corredor e logo meus pais vinham ao nosso encontro. Só assim ele pode parar com as investidas. Abraçou-me de leve pelo ombro e minha mãe sorrindo perguntou:
         -Como estão os noivos?!
         E eu acordei. Eram 7:30 da manhã.
 Autora: Danielly Lopes - Araguaina/TO

Princesas com sapatinho de cristal

         “Meritíssima”, eu começava, “minha cliente sofreu cerca de seis facadas no abdômen no ultimo dia 06, por nada mais que ciúmes do marido...”. E lá se ia mais um caso, no meio de tantos outros no qual eu tentava sempre proteger minhas clientes do abominável sexo masculino. “Sexo frágil”. Humphf!
          Mulheres são como flores, mas nem por isso precisam ser esmagadas. Eu sempre soube disso, sempre defendi isso. Porém a minha realidade é outra, totalmente distorcida.
          Fico cara a cara com inacreditáveis historias de terror que, quando menina não me deixavam dormir, e que hoje porém,  o pesadelo me atormenta cada vez mais assustador de um caso pro outro, de uma cliente pra outra... De uma surra que depois da primeira vez passou a ser freqüente, a um corpo encontrado sem vida no chão do banheiro. E o pior de tudo isso é que quando abro os olhos os monstros ainda estão aqui. O machismo atualmente, deveria não existir, mas não só existe como persiste também.
         Tive que ouvir muita coisa ao comprar a minha casa, ao escolher meu curso na faculdade, e até mesmo quando escolhia usar calça ao invés de uma saia pra sair.
         Muitos mitos foram adquiridos ao longo do tempo na humanidade, e o meu papel, não de promotora, mas de mulher que se preza é esse: Quebrar essa realidade inversa, que ficou lá atrás, mas que infelizmente trouxe pro presente os chamados trogloditas.
         Penso nisso em todos os fins de tarde no meu caminho de volta pra casa.
         Já deitada na minha cama, ouço uma doce melodia vinda ao longe. Recuso a levantar-me no primeiro instante, mas fico de pé em frente à janela, suspirando ao ver quem me espera.
         A visão do moço alto, tocando violão embaixo da minha varanda, sorrindo e exibindo as covinhas que ele guarda só pra mim, me faz voltar aos meus tempos de menina, em que a verdade conhecida era a dos contos de fadas, a de que princesas eram sempre acordadas com um beijo de amor verdadeiro... Diferente dos dias de hoje, onde as princesas com sapatinho de cristal morrem; pelos punhos dos ditos príncipes.
  Autora: Danielly Lopes - Araguaína/TO

Brilho de camelô

quarta-feira, 29 de julho de 2015

          Cedo ele já estava de pé - hoje mais cedo que o habitual – vai até o quarto da filha e a contempla dormindo. Há 15 anos que toda manhã faz esse mesmo gesto. Apressado se veste e escova os dentes. Merendar pão com café?! Nem pensar! Não há tempo para formalidades.
          E pedalando segue, sozinho, quase flutuando – perdido até – em seus pensamentos. E então pensa consigo “Hoje é dia 05, bem pois é, amanhã tem conta de luz e semana que vem já chega a de água... Cacetada! Foi ontem a prestação da geladeira, meu nome vai acabar indo pro HSPC!! Droga, bem disse pra mulher que não íamos conseguir pagar...”
          Quase sem perceber adentra o local de trabalho. Insalubre e desajeitado local de trabalho. Ele, ao contrario do lugar, é bem ágil e com suas mãos de fada enfeitada de calos grossos, vai exercendo seu oficio. Aprendera com o pai e a mais de vinte anos que se sustenta com tal. Corta, lixa... “Opa, tudo bom seu Francisco?!!”... costura. Pronto um pé do par, falta o outro pé para dar uma passada completa.
           Ao cair da tarde, antes de sair, fora convocado a passar na sala do chefe. Despedido. Sem motivo maior ele deixa a fabrica de botinas de couro. Desiludido refaz seu próprio caminho enquanto volta pra casa.
           A filha com um sorriso de orelha a orelha, o espera na soleira da porta. Abraço apertado pra cá, beijinho pra lá. “Espera um instantinho, pequena?! Tenho uma surpresa pra tu”. Vai lá dentro do quartinho apertado, e numa gaveta velha pega o que comprou e guardou durante duas semanas. O qual ela queria tanto.
          - Feliz aniversário, minha filhota! Agora já tem 15 anos, pode usar a vontade. Papai não esqueceu, era o que queria não é?? Aquele do qual vi tu conversando com a Chaguinha??...
          E um pouco aturdido no olhar brilhante da filha, ficou ali, parado. Esqueceu-se de tudo: das contas, do chefe, da demissão e do desemprego. E por um momento se permitiu compartilhar do sorriso da filha, que ficara tão feliz com um brilho labial rosinha, que o pai comprara no camelô.

Autora: Danielly Lopes - Araguaina / TO

Ciúme que não mata

segunda-feira, 6 de julho de 2015

          Em duas semanas completariam bodas de prata. Na ultima viagem de férias aproveitou que ele não pôde deixar o trabalho e organizara tudo com antecedência na capital.
          Planejara sozinha a comemoração que marcaria o ápice do amor dos dois. Casa cheia, família reunida, um churrasco, musica ao vivo, vestido novo, quem sabe um bolo e até mesmo uma daquelas cascatas de chocolate iguais as da TV! Ele adorava chocolate.
          O único problema era conseguir guardar segredo do marido. Ela era horrivelmente péssima em mentir. Logo o marido descobriria.
          E ele descobriu numa noite a caminho de casa, enquanto ela preparava o assado para o jantar. Ele chegou em casa batendo a porta com força e começou a gritar. Ela não entendia o porquê da raiva dele. “O que aconteceu meu amor?!” com lagrimas nos olhos ela tinha dito.
          Mas aquele desconhecido com uma faca na mão já não era seu homem. Era frágil, inseguro e gradativamente louco.
         Não teve como se defender. E em cada punhalada que recebia do marido, esganiçava para que ele parasse, tentou até revelar-lhe da festa, mas nada pôde falar ou fazer.
         Em minutos estaria caída no chão com seu marido ao lado. Ele sofrera de um infarto. Ela de facadas. Sofreram os dois por conta dos ciúmes dele.                                   
         Tudo isso ela relataria em seu depoimento a policia meses depois, debilitada ainda e com lagrimas nos olhos, como naquela noite em que o amor morreu, pois infelizmente era a verdade. Até porque não sabia mentir.
Autora: Danielly Lopes - Araguaína/TO