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Brilho de camelô

quarta-feira, 29 de julho de 2015

          Cedo ele já estava de pé - hoje mais cedo que o habitual – vai até o quarto da filha e a contempla dormindo. Há 15 anos que toda manhã faz esse mesmo gesto. Apressado se veste e escova os dentes. Merendar pão com café?! Nem pensar! Não há tempo para formalidades.
          E pedalando segue, sozinho, quase flutuando – perdido até – em seus pensamentos. E então pensa consigo “Hoje é dia 05, bem pois é, amanhã tem conta de luz e semana que vem já chega a de água... Cacetada! Foi ontem a prestação da geladeira, meu nome vai acabar indo pro HSPC!! Droga, bem disse pra mulher que não íamos conseguir pagar...”
          Quase sem perceber adentra o local de trabalho. Insalubre e desajeitado local de trabalho. Ele, ao contrario do lugar, é bem ágil e com suas mãos de fada enfeitada de calos grossos, vai exercendo seu oficio. Aprendera com o pai e a mais de vinte anos que se sustenta com tal. Corta, lixa... “Opa, tudo bom seu Francisco?!!”... costura. Pronto um pé do par, falta o outro pé para dar uma passada completa.
           Ao cair da tarde, antes de sair, fora convocado a passar na sala do chefe. Despedido. Sem motivo maior ele deixa a fabrica de botinas de couro. Desiludido refaz seu próprio caminho enquanto volta pra casa.
           A filha com um sorriso de orelha a orelha, o espera na soleira da porta. Abraço apertado pra cá, beijinho pra lá. “Espera um instantinho, pequena?! Tenho uma surpresa pra tu”. Vai lá dentro do quartinho apertado, e numa gaveta velha pega o que comprou e guardou durante duas semanas. O qual ela queria tanto.
          - Feliz aniversário, minha filhota! Agora já tem 15 anos, pode usar a vontade. Papai não esqueceu, era o que queria não é?? Aquele do qual vi tu conversando com a Chaguinha??...
          E um pouco aturdido no olhar brilhante da filha, ficou ali, parado. Esqueceu-se de tudo: das contas, do chefe, da demissão e do desemprego. E por um momento se permitiu compartilhar do sorriso da filha, que ficara tão feliz com um brilho labial rosinha, que o pai comprara no camelô.

Autora: Danielly Lopes - Araguaina / TO

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