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Maldito acidente

terça-feira, 25 de agosto de 2015



          “Tua mulher tá te traindo” com os dedos ágeis eu tinha escrito. Uma mexidinha na configuração do SMS e pronto! Anônimo, claro. Eu estava segura a ponto de mostrar ao meu pai quem era de verdade essa piriguete que ele colocou em nossa casa.
          -Você precisa de alguém pra substituir sua mamãe, já faz um ano querida... – Ele tinha dito.
          -Eu preciso?! Ah!- Eu era o sarcasmo em pessoa - Não importa se já passou um ano que ela se foi naquele maldito acidente! Ninguém vai substituir a minha mãe... Nunca! – disse. Mas foi o mesmo que não ter dito. Duas semanas depois e a lambisgoia tinha se apossado da vida da minha mãe... Da minha vida.
          Naquele tarde ele iria saber. Ele tinha que acreditar por que eu não suportava mais ficar assistindo aquela bruxa trocar meu pai pelo amante. Ou como ela costumava dizer, o “primo distante do Sul”. Aquilo tudo estava me deixando insegura, frágil e gradativamente louca. E sem pensar em nada, decidi apenas não mais passar por isso outra vez.
         Era só tocar ENVIAR na tela e... resolvi então não enviar o SMS, eu não tinha nada que me meter, não é mesmo?! Pronto foi isso, apenas deixei pra lá.
          Mas o celular deu xabu, travou e não quis voltar nem com reza!  Tentei reiniciar. Reiniciei, mas não foi como eu imaginei, deu problema. A porcaria da mensagem já havia sido enviada. E o pior não foi pro numero do meu pai, mas pro Sr. Mário Amorim meu vizinho. Foi um acidente assim como a morte da minha mãe, só que esse eu poderia consertar, se não estivesse mega atrasada pra escola.
          -Mas que pitombinha – lembro de ter dito pela primeira vez de muitas, naquele dia.
          Pensei que contar o mal entendido pro seu Mário depois da escola não seria problema. Afinal os meus vizinhos eram apaixonados. E segundo Dona Nena, esposa de seu Mário, eles estavam pra comemorar 25 anos de casados com um baita festão que teria até uma cascata de chocolate iguais as da novela das 11. O amor deles ao contrário do que os meus pais sentiam, não ia morrer. Acidentalmente não foi isso que aconteceu com meus pais, pois acidentes acontecem e eu precisaria aceitar que algumas vezes o amor morre, mata e outras ainda, vive eternamente... Amor como o que eu ainda sinto pela minha mãe.
Autora: Danielly Lopes - Araguaína / TO

“Paiaço”

domingo, 9 de agosto de 2015

          Meu pai já foi modelo e DJ quando jovem, mas hoje não se contenta só com a serralheria, sonha em realizar novos empreendimentos todos os dias. Meu pai antes de mim planejava ter cinco filhas, mas quem o conhece sabe que ele parou na primeira que teve. Foi meu pai quem me comprou um radinho vermelho que quando bebê me fazia balançar animada ao som que fazia. Meu pai queria que eu me chamasse Micaela, talvez por isso ate pouco tempo escrevia meu nome com um “A” no final.
         Meu pai me ensinou toda a tabuada de multiplicação. E aos oito quando discuti com minha professora, ele quem foi chamado pela coordenação. E com a promessa de uma pisa bem dada foi a primeira e ultima vez que a escola o viu. Meu pai nunca me bateu, e eu não sou uma pessoa ruim por isso.
         Meu pai sabe desenhar, mas morre de preguiça disso. Meu pai sempre dividiu meus lanches comigo. Ele sempre é o primeiro e o ultimo a comer de um pote de doce. Ele é apaixonado por Nesquik e sempre diz que quem quiser matá-lo é só por veneno numa lasanha quentinha pra vê-lo estirado chão. Aliás, lasanha é seu prato favorito.
         Foi ele quem há pouco tempo voltou a estudar e hoje mudou sua escolaridade para “Ensino médio completo”. Meu pai é muito inteligente, mas é péssimo em ortografia. Meu pai é muito curioso, e talvez por isso seja sempre ele quem concerta tudo de tudo aqui em casa – Depois de mamãe muito pedir.
         Meu pai sempre me faz rir, não importa qual a situação; Creio que tenha sido ele a estragar minha “tranca de gargalhada” quando eu ainda era uma menininha. Meu pai sempre começa uma briga de almofadas na sala quando a novela fica chata. Sempre ganhei do meu pai no videogame, e ele sempre pede revanche, em compensação ele sempre vence a revanche. Meu pai solta pipa, dança flashback e gosta dos heróis da Marvel, inclusive o Hulk. Os filmes de ação só têm graça se ele estiver comigo pra me explicar cada explosão. Papai nunca teve muito jeito com crianças, mas elas o adoram e talvez por isso eu tenha perdido a conta de quantos afilhados, mamãe e ele possuem.
         Meu pai é um bom marido. Chama mamãe de “Bem” e eu me lembro de quando ele mandava msg pro celular de mamãe assinando como um admirador secreto. Ele e mamãe são o casal mais lindo que já conheci. E acredito que quando me apaixonar por alguém, esse alguém será como ele, criativo, honesto e sempre me fará rir. Enquanto isso, sigo apaixonada só por ele mesmo.
         Meu pai é minha imagem e semelhança, serio mesmo. Tem cara de bravo, mas é só abrir um sorriso que todo o resto se esvai. Odeia mentira, e consequentemente falsidade.  Às vezes seus olhos estão como o mel mais puro, mas a cor do mesmo muda conforme o humor.
          Meu pai é nada mais que menino danado. É grande contador de historias e em cada uma se comprova o quão desinquieto era quando criança. Bebe socialmente e quando chega o fim de semana abandona as botas de bico de ferro e as troca por um boné da moda e um par de sandálias. Meu pai é dono de um bom gosto indiscutível.
          Meu pai me ensinou a andar de bicicleta e hoje me ensina a dirigir seu carro. Meu pai sempre me acorda perguntando se vou pra escola, e eu sempre penso duas vezes antes de confirmar. Meu pai gosta de chocolate branco enquanto eu ainda prefiro chocolate ao leite. Meu pai me magoou quando não compareceu a minha Crisma, mas já o perdoei. Meu pai a cada cachorro que criávamos e vinha a falecer, ele dizia que não criaria mais nenhum, a prova que contradiz tudo isso é o Tufão, que brinca ali no quintal. 
          Ele quem chegava em casa com duas ou três revistas em quadrinho pra me presentear, e hoje tem que suportar e custear essa minha fome insaciável por livros e historias novas. Meu pai leu um livro uma vez, mas não passou do prólogo; cochilou e nunca mais o pobrezinho foi aberto. Ele quem me acompanhou na “saga da OLP”, inclusive foi ele quem viajou de avião junto comigo por conta disso...
         Meu pai é o melhor pai do mundo, não por ser perfeito, nem mesmo por ser um super herói. Ele é o melhor porque ele é pai, amigo, irmão e meu filho tudo ao mesmo tempo e na hora certa. Mamãe costuma dizer que ele é “pai-paiaço” por sempre me apoiar em tudo. Mas talvez seja isso mesmo. Quem sabe ele seja mesmo um super herói, um homem de aço... O meu Pai-aço. Ele é tudo isso e um pouco mais.
Autora: Danielly Lopes - Araguaina / TO

 

Bonequinha portuguesa


          As tenebrosas e carregadas nuvens, que escondiam o lindo pôr do sol que daqui se costuma ver, já mostravam que algo de ruim aconteceria naquela tarde.
          Confesso-lhe, caro leitor, que não sou uma menina muito organizada e digo-lhe ainda que essa foi uma das raras vezes que eu mesma arrumei meu quarto, mas com o tempo fechado como estava e todos meus livros da estante já lidos, não me restou outra coisa a fazer.
          Comecei a faxina. Pano, vassoura, desinfetante (para dar aquele cheirinho de limpeza), detergente multiuso e um cesto para abrigar as roupas que se encontravam no chão. Depois de amontoar as roupas sujas no cesto, passar pano no chão e arrumar a cama, chegou a hora de tirar pó da cômoda.
          Tirei cuidadosamente os enfeites e porta-jóias que ficam em cima do móvel. Tudo ia bem, até que minhas mãos, escorregadias por causa do detergente deixaram a ultima peça cair.
          Uma bonequinha de louça, vestida formalmente com um vestido longo e rodado de seda, todo lilás e com bordados pretos na barra. Usava também, uma boina da mesma cor e tecido do vestido, por cima de seus longos e cacheados cabelos castanhos. Era linda, e tinha sido trazida de Portugal especialmente para mim, sem duvidas o meu xodó.
          Perna para um lado, pezinho para o outro; braços partidos em dezenas de pedaços, do corpo nada sobraram além de cacos. Somente o vestido e os cachos não foram danificados pela queda.
          Após alguns minutos contemplando aquela triste cena, peguei a pá e recolhi os cacos – os meus e os da boneca - lentamente e, com os olhos cheios de lagrimas, joguei-os no lixo.
        Hoje o vestidinho de seda veste, um pouco apertado, uma outra bonequinha, dessa vez de plástico e eu nem me atrevo mais a tirar pó de meu quarto.
Autora: Maria Luiza Pacheco - Nuporanga / SP