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Menina Miçanga

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

É de tarde e o temporal está se anunciando. Durante os últimos dias escaldantes, o desejo é de chuva. Que ela venha. E rápido.
Agora, relâmpagos riscam o céu, que de azul plácido foi para cinza chumbo, causando certa apreensão aqui em casa. Mas por parte dos meus pais, porque eu estava tranquilo. Minha mãe corre atônita, tapando os espelhos com toalhas de banho. Meu pai fazia uma cruz de sal e erva-mate na madeira mogno da mesa, no propósito de espantar os perigos que a chuva podia trazer.
- Santa Bárbara, São Jerônimo! - berra minha mãe, assim que um trovão abala nossos tímpanos.
Na janela da sala observo a tempestade - é isso que faço quando o clima está assim.
A chuva começa a cair. Pingos grossos, em demasia, batiam no asfalto da rua e voltavam, como a luz bate no espelho e reflete. Tal fato deixava as sinalizações, lojas, e quase tudo, imperceptível.
Meus olhos se acostumam com a vista - a imperceptibilidade do pequeno mundo da minha janela - até que algo interrompe a visão.
É uma menina, totalmente encharcada, com uma beleza excepcional.
Ela abre os braços e dá piruetas, a camiseta branca molhada se ajusta em seu corpo perfeito. Se abriga no que parece ser a marquise de uma loja, olha para frente, e me detecta.
Seu olhar bate de frente com o meu e ela faz sinal para me unir a eles - ela, a chuva, e a marquise.
Sem pestanejar saí correndo pela porta, meus pais já haviam se recolhido, e a menina estava a poucos metros de distância.
A marquise era de fato uma marquise. A garota era ainda mais bela. Como num ato automático, nos sentamos na soleira da vitrine da loja. Ela usava uma pulseira de miçangas e girava-a no dedo como se gira um bambolê na cintura.
- Oi - eu disse, rompendo o silêncio que estava instaurado.
- Olá - ela respondeu, prestando atenção no cintilar das miçangas na órbita em volta do seu dedo.
Em súbito, a moça me puxa pelo braço, me levando de volta a chuva, me fazendo seguir suas piruetas e abrir os braços como um maluco, gritando "sinta a chuva lavar sua mente".
De repente, sem pensar, a puxo para perto de mim e nossos peitos se chocam, coloco uma mecha de seu cabelo castanho atrás de sua orelha, e lhe dou um beijo. Nossas bocas ficam entrelaçadas por um tempo que parece ser uma eternidade. Quando terminamos ela abre um largo sorriso, que vindo dela só podia ser magnífico, e diz:
- Prazer em te conhecer.
Eu a beijo novamente, e então ela sai correndo pela rua, agora mais visível, e se vira uma vez para sorrir novamente, pra só então, sumir pela saída a esquerda.
Volto a marquise; sento na soleira da vitrine novamente.
- Não sei o nome dela, número, tampouco endereço. Ela não me deixou nada - digo, pondo os pensamentos em voz alta.
Olho para o lado e percebo que ela esqueceu a pulseira de miçangas.
Miçangas laranjas e roxas, sustentadas por um vil fio de náilon. Talvez feita em casa ou comprada de um ambulante.
- Pelo menos isso! - exclamei.
Já que ela não estava ali, as miçangas a representariam então, mantendo o quarteto: A chuva, a marquise, eu e a menina, agora uma menina miçanga.
A chuva ia indo embora, a cruz de sal e erva estava funcionando.
Com meus passos lentos me dirigia novamente a minha residência, girando a pulseira no dedo, observando o cintilar e a órbita das miçangas, tal como ela faz.

Autor: Cleiton Andrade - Rio Pardo/RS

2 comentários

  1. Sem palavras Gaucho, não sei como mas, mais uma vez tu se superou!
    Essa crônica ta... linda; É emocionante!
    Obrigada por escrever :D

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