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Bolacha água e areia

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Chegava, desfilando com balões coloridos e palhacinhos, cachorros-quentes, presentes e docinhos: o dia das crianças. Ele estava sentado em frente ao seu computador, pensando sobre o significado da data. Relembrar a infância, a era da inocência. Quando cream cracker era um ótimo lanchinho. Um coração se quebrava ao final do desenho favorito, mas se arrumava assim que começasse o próximo. Quando o fim de uma amizade consistia em dizer "tô de mal", e quando mindinhos entrelaçados remendavam qualquer laço. Quando "mercado" era só aonde se ia com o papai e a mamãe e saía tomando sorvete. Quando responsabilidade consistia em guardar seus brinquedos, ser bom era ir dormir na hora, ser feliz era comer chocolate e seu melhor amigo era um cachorro. Quando o amor da sua vida era sua mãe, e 12 de outubro era dia de presente.
Ele já passara por tudo isso. Um coração quebrado agora precisava de cola. Uma amizade que acabasse, acabava. Laços que se rompiam precisavam de um esforço monumental para se reatarem, e mindinhos serviam só para fazer conjunto. Não tinha mais tempo ou paciência para desenhos e brinquedos, o mercado era um lugar escuro em que um pisava no outro para chegar ao topo, sem sorvete no final. Dormir na hora era basicamente um luxo. Agora, já amou sem ser correspondido, e já deixou de corresponder. Já usou amor como meio de autopunição, e a mãe é a mãe. Cachorros dão trabalho, chocolate engorda, cream cracker tem gosto de areia e o dia da crianças é um feriado comercial. Pronto, acabou a infância. E nem lembra direito dela.

Autor: Víctor Chagas - Recife/PE

Um comentário

  1. Víctor, tu retratou bem essa nossa "idade de nada"!
    Infãncia era o tempo bom, e ser adulto ainda não sabemos como deve ser a cor ou o cheiro... O que sobra pra nós é sempre esse meio termo que nos mata, nunca nos deixando ser algo de verdade! Vamos imaginar? Ainda temos tempo...

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