Chego à igreja muito antes da missa começar, a fim de
observar os fiéis em seu culto costumeiro. Sento-me no último banco da fileira
para poder observar do alto em diagonal a igreja por completo. Em meia hora, todos os assentos estavam
lotados para a missa das seis da tarde. Velhas caquéticas, gordos, magros,
crianças e adolescentes se acomodam e cochicham uns aos outros à espera do
padre chegar.
A maioria ignora o cartaz
avisando para desligar os celulares, e eu também sigo o exemplo; estava irrequieto
demais para ficar vegetando em um banco. Já muito atrasado, o homem da batina
adentra a igreja em uma procissão de velas e crianças de véu branco. O padre
sobe ao altar sem fôlego, a barriga protuberante prestes a estourar o justilho
da roupa. Seu rosto e braços eram vermelho pimentão, o que sugeria problemas
cardíacos ou quem sabe um vício de álcool. Uma ministra da igreja se endireita
atrás de um altar e começa a leitura das pessoas que já morreram, dos
aniversariantes, recém-casados e celebrantes da missa de sétimo dia, mas
ninguém se importava ou prestava atenção, estavam mais interessados na fofoca
do final de semana.
E então o sermão começa. Todos se sentam e se levantam
incontáveis vezes, recitamos as frases nas horas certas automaticamente, sem fé
e em tom fúnebre, ninguém parecia mais saber o que dizia. O padre gritava rouco
no altar ‘’palavra do Senhor’’ e sua plateia morta rebatia ‘’amém’’, e uma
débil salva de palmas ressonava a igreja. Entremeando uma leitura a outra, os
cânticos se iniciam, e a banda da comunidade tamborila em seus instrumentos,
enquanto uma voz potente cantava em excelência a Deus. Neste momento todos
relaxam, alguns chegam a acompanhar as músicas, porém este coral era em demasia
tênue, e escapou dos meus ouvidos identificar a quem pertenciam suas vozes.
O cesto do dízimo corre de mão em mão ao longo das fileiras
dos bancos; algumas pessoas colocam moedas de cinquenta ou um real, mas a
maioria simplesmente encosta a mão no fundo do balaio em respeito e repassa o
cesto para a pessoa mais próxima. Pareciam mais interessados em comprar um saco
de pipoca ao final da missa do que doar alguns trocados para a igreja.
Os minutos se arrastam e a maioria já estava cansada
daquele fingimento de aparências; crianças pediam para ir ao banheiro e não
voltavam mais, bebês berravam um choro agudo e suas mães manobravam o peso para
o outro braço, inquietas, exaustas. Os homens lutavam com as pálpebras para
permanecerem acordados, enquanto os adolescentes já estavam do lado de fora da
igreja, beijando as sombras da grande cruz que se situava no estacionamento.
E então chega a hora da
distribuição da hóstia, rapidamente uma fileira de católicos se forma em cada
viga da igreja, misteriosamente esperançosa e com fé de sobra. Acabei notando
que o momento do corpo de Cristo simbolizava o final da missa se aproximando, por
isso ficaram tão animados repentinamente. Com hóstia em mãos, todos se sentam
em seus respectivos lugares e a colocam na boca. Um silêncio toma o local, a
maioria estava ajoelhada na tábua que fica presa atrás dos bancos. Instigava-me
saber se eles estavam realmente rezando ou se apenas fingiam, de olhos fechados
e mãos pressionadas em prece, cogitando em sua mente quanto tempo mais deveriam
ficar naquela posição dolorosa para os joelhos.
O momento da paz de Cristo se aproxima, e todos se abraçam
e se cumprimentam, com um largo sorriso no rosto e um alívio de dever cumprido
nos ombros. Então todos vão embora com a certeza de uma vaga no Céu garantida.
Com todos os assentos vazios e sem cabeças para esconder a
minha visão, a primeira fileira de bancos me surpreende. Ainda de joelhos no
chão, enquanto o padre e os ministros arrumavam as suas coisas para partir, uma
fila de idosos orava silenciosamente fitando uma cruz na parede. Sua pele
enrugada aflita e esperançosa, as mãos juntas em profunda devoção a Jesus. Todos
agradeceram mais um dia de vida e depois pediram por saúde e mais anos para
acompanhar a vida de seus filhos e netos. Depois se levantaram com mesuras uns
para os outros e foram embora.
Helder Pedrosa, Lagoa da Prata/Minas Gerais.
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