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Tradição

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Chego à igreja muito antes da missa começar, a fim de observar os fiéis em seu culto costumeiro. Sento-me no último banco da fileira para poder observar do alto em diagonal a igreja por completo.  Em meia hora, todos os assentos estavam lotados para a missa das seis da tarde. Velhas caquéticas, gordos, magros, crianças e adolescentes se acomodam e cochicham uns aos outros à espera do padre chegar.
                A maioria ignora o cartaz avisando para desligar os celulares, e eu também sigo o exemplo; estava irrequieto demais para ficar vegetando em um banco. Já muito atrasado, o homem da batina adentra a igreja em uma procissão de velas e crianças de véu branco. O padre sobe ao altar sem fôlego, a barriga protuberante prestes a estourar o justilho da roupa. Seu rosto e braços eram vermelho pimentão, o que sugeria problemas cardíacos ou quem sabe um vício de álcool. Uma ministra da igreja se endireita atrás de um altar e começa a leitura das pessoas que já morreram, dos aniversariantes, recém-casados e celebrantes da missa de sétimo dia, mas ninguém se importava ou prestava atenção, estavam mais interessados na fofoca do final de semana.
E então o sermão começa. Todos se sentam e se levantam incontáveis vezes, recitamos as frases nas horas certas automaticamente, sem fé e em tom fúnebre, ninguém parecia mais saber o que dizia. O padre gritava rouco no altar ‘’palavra do Senhor’’ e sua plateia morta rebatia ‘’amém’’, e uma débil salva de palmas ressonava a igreja. Entremeando uma leitura a outra, os cânticos se iniciam, e a banda da comunidade tamborila em seus instrumentos, enquanto uma voz potente cantava em excelência a Deus. Neste momento todos relaxam, alguns chegam a acompanhar as músicas, porém este coral era em demasia tênue, e escapou dos meus ouvidos identificar a quem pertenciam suas vozes.
O cesto do dízimo corre de mão em mão ao longo das fileiras dos bancos; algumas pessoas colocam moedas de cinquenta ou um real, mas a maioria simplesmente encosta a mão no fundo do balaio em respeito e repassa o cesto para a pessoa mais próxima. Pareciam mais interessados em comprar um saco de pipoca ao final da missa do que doar alguns trocados para a igreja.
Os minutos se arrastam e a maioria já estava cansada daquele fingimento de aparências; crianças pediam para ir ao banheiro e não voltavam mais, bebês berravam um choro agudo e suas mães manobravam o peso para o outro braço, inquietas, exaustas. Os homens lutavam com as pálpebras para permanecerem acordados, enquanto os adolescentes já estavam do lado de fora da igreja, beijando as sombras da grande cruz que se situava no estacionamento.
                E então chega a hora da distribuição da hóstia, rapidamente uma fileira de católicos se forma em cada viga da igreja, misteriosamente esperançosa e com fé de sobra. Acabei notando que o momento do corpo de Cristo simbolizava o final da missa se aproximando, por isso ficaram tão animados repentinamente. Com hóstia em mãos, todos se sentam em seus respectivos lugares e a colocam na boca. Um silêncio toma o local, a maioria estava ajoelhada na tábua que fica presa atrás dos bancos. Instigava-me saber se eles estavam realmente rezando ou se apenas fingiam, de olhos fechados e mãos pressionadas em prece, cogitando em sua mente quanto tempo mais deveriam ficar naquela posição dolorosa para os joelhos.
O momento da paz de Cristo se aproxima, e todos se abraçam e se cumprimentam, com um largo sorriso no rosto e um alívio de dever cumprido nos ombros. Então todos vão embora com a certeza de uma vaga no Céu garantida.

Com todos os assentos vazios e sem cabeças para esconder a minha visão, a primeira fileira de bancos me surpreende. Ainda de joelhos no chão, enquanto o padre e os ministros arrumavam as suas coisas para partir, uma fila de idosos orava silenciosamente fitando uma cruz na parede. Sua pele enrugada aflita e esperançosa, as mãos juntas em profunda devoção a Jesus. Todos agradeceram mais um dia de vida e depois pediram por saúde e mais anos para acompanhar a vida de seus filhos e netos. Depois se levantaram com mesuras uns para os outros e foram embora. 


Helder Pedrosa, Lagoa da Prata/Minas Gerais. 

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