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Consciência de menininha

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

       - Vai embora, ele já foi.
          Minha consciência me instruía, mas eu não era capaz de mover um músculo para sair do lugar. Parada ali no meio da rua, eu estava perdida em meus pensamentos. O que teria sido realmente aquilo? O que de fato acabara de acontecer? Eu já não sabia de mais nada.
          Tentava a todo custo lembrar, mais minha mente tinha transformado tudo aquilo num imenso borrão de tinta e, eu não conseguia ver nada. Estava como uma míope sem óculos.
          Aquilo havia virado mais uma lembrança esquecida na minha gaveta de meias.
          Vamos do começo: Estávamos ele e eu andando pela rua, conversando sobre... Sobre o quê mesmo? Talvez fosse sobre refrigerantes ou alguma besteira do tipo... E depois, o que aconteceu? Teria ele tentado me beijar? Eu ainda consigo sentir a pressão dos lábios quentes dele sobre o meu olho esquerdo. O que eu disse quando ele mecanicamente corou? Como ele reagiu depois do empurrão que eu dei nele? Tinha tudo ficado um pouco nebuloso e agora sentia que estavam um pouco apagadas em minha mente essas impressões.
          Mas lá ia ele já tão longe, quase no fim da rua, e eu ainda continuava ali. Estática. Estava tudo muito confuso e ilusório.
          Lembro-me apenas dele ser meu melhor amigo, mas do resto, nem do meu próprio nome me recordo mais. Eu estava como quando se acorda de um sonho bom sem se lembrar de nada do devaneio... Estava apenas sentindo uma forte sensação, talvez algum novo sentimento... Talvez amor. Só não sabia eu se isso era bom ou ruim.
          - Ele não vai voltar, pode ir pra casa.
          Minha consciência insistia. Mas ir pra onde? Sem ele por perto eu já não sei quem sou, onde moro ou como respirar... Estava sufocada, tinha esquecido como viver. Como seria dali em diante? Ele continuaria meu amigo, ou aquela situação de quase beijo ia estragar tudo aquilo que havíamos passado juntos?
          Queria gritar a plenos pulmões a resposta que ele – com todo o carinho - me pedira, que eu o amava... Mas eu estava hipnotizada pelo calor do momento.
          - Ta vendo?! Ele não volta, pode ir embora.
          A voz da minha consciência tornou a repetir, mas agora ela parecia mais perto e infantil que de costume. Virei o rosto à procura daquela voz tão angelical e meu olhar foi atraído para uma menininha de uns seis aninhos sentada no meio fio da rua deserta. Vestida de cor de rosa, e com lacinhos nos cabelos era ela quem me aconselhava a ir embora. Teria ela assistido toda aquela cena? Saberia ela responder a todas as minhas perguntas? Certamente flagrara meu olhar vago que insistia em acompanhar o menino bonito que já tinha virado a esquina. Enrubesci no mesmo instante.
          Acordei do meu transe fazendo um sinal de positivo com o polegar para ela, fingindo estar tudo bem. Ela, a minha doce consciência, sorriu mostrando uma porteirinha e aquele sorriso me seguiu pelo caminho até sumir em mim.

Autora: Danielly Lopes - Araguaína/TO
 

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